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Criticada por Bolsonaro, prova de linguagem do Enem cobra hábito de leitura

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Eduardo Sombini

Colaboração para o UOL, em São Paulo



11/06/2019 

A prova de linguagens e códigos do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) abarca temas de literatura, português e língua estrangeira (inglês ou espanhol), como outros vestibulares, mas também trata de assuntos como linguagem corporal e artes.

Neste ano, a prova será aplicada em 3 de novembro, no mesmo dia de redação e de ciências humanas.


Questões sobre os aspectos linguísticos em diferentes textos, que avaliam o domínio de recursos de expressão da língua portuguesa e de procedimentos de escrita e leitura, foram as mais frequentes nas provas do Enem entre 2014 e 2018, de acordo com levantamento do Curso Poliedro. Aspectos de textos literários foram o segundo tema mais frequente.



Buscando orientações para os candidatos, a reportagem conversou com Henrique Braga, professor do Anglo Vestibulares, e Maria Cristina Armaganijan e Nelson Dutra, coordenadores do Colégio e Curso Objetivo.

Interpretação de texto é o foco da prova No Enem, faz pouca diferença se o candidato consegue, por exemplo, identificar uma oração coordenada adversativa no enunciado das questões.

A prova se concentra na avaliação dos recursos linguísticos do candidato, isto é, se é capaz de compreender os mecanismos que estruturam o funcionamento da língua portuguesa.


Por esse motivo, é mais importante melhorar a interpretação de textos do que tentar decorar o universo de classificações gramaticais. 

"É muito pouco provável que a prova peça para o candidato classificar o tipo de oração, mas pode perguntar como um texto opera relações de contraste em sua argumentação", diz o professor Henrique Braga. Nesse caso, o estudante precisa ser capaz de notar esse instrumento de linguagem e compreender o sentido do texto.


Vale lembrar que os candidatos são cobrados a interpretar outras linguagens além do texto escrito. Na prova de 2018, por exemplo,uma questão apresentou a fotografia de uma performance artística e um texto sobre "body art", que fazia referência a experimentações corporais por artistas.

Leia tudo o que puder O primeiro passo para melhorar a capacidade de interpretar textos é ampliar o hábito da leitura. Nelson Dutra considera que o Enem mede a formação do candidato como leitor durante toda a sua trajetória escolar. "A prova avalia não só o ensino médio, mas toda a recepção cultural por meio da linguagem escrita do candidato." 

Reinaldo Canato/UOL

Para ele, a prova é mais fácil para candidatos que tenham começado cedo a ler. "É como uma corrida: quem treina há mais tempo tem vantagem", afirma. Por isso, sua recomendação para quem vai prestar o Enem, mas lê pouco, é começar o quanto antes.

A coordenadora de inglês Maria Cristina Armaganijan dá a mesma recomendação para as questões de língua estrangeira: ler tudo o que cair nas mãos dos candidatos, de letras de música a revistas em quadrinhos.


"O aprendizado de uma língua é acúmulo de conhecimento. Leia o máximo que puder. Quanto mais ler, mais seu vocabulário vai aumentar."


Ela considera que ter uma experiência ampla de leitura pode ajudar o candidato a conhecer um número maior de temas, o que pode suprir lacunas nas questões de inglês. "É uma prova não só de linguagens, mas de conhecimento de mundo."


O hábito de leitura também é importante nas questões de literatura, nas quais o candidato é cobrado a interpretar o contexto social dos textos literários, mas sem uma bibliografia específica como em outros vestibulares. 

André Luis Ferreira /Folhapress

Qual a crítica de Bolsonaro?



Os assuntos da prova do Enem são escolhidos a partir de um conjunto de competências e habilidades (veja a lista abaixo) e um dos temas mais recorrentes é a variação linguística. Em questões desse tipo, é realçada a perspectiva de reconhecer as diferentes formas de uso do português, de acordo com fatores sociais, regionais e culturais.


Para Henrique Braga, a prova do Enem trata os diferentes modos de falar do português como parte de um patrimônio linguístico nacional, sem desconsiderar que o padrão culto da língua, mais formal, tem seu espaço na comunicação.

No Enem de 2018, uma questão desse tema se tornou objeto de polêmica. Em novembro, o então presidente recém-eleito, Jair Bolsonaro, criticou a questão, que tratava de expressões linguísticas usadas por gays e travestis, e a associou com a chamada "ideologia de gênero".


Braga avalia que os ataques que a questão sofreu tratam do tema do enunciado --o pajubá, dialeto de membros da comunidade LGBT--, e não da pergunta que se faz daquele texto.




"Essa discussão é meio descabida. No cenário de polarização política, ganhou dimensão maior do que deveria ter e a questão foi acusada de doutrinação, mas ela apenas registra um dialeto e não favorece os candidatos que o usam."


Na língua estrangeira, entenda o sentido geral

Professores recomendam que o candidato faça primeiro as questões que ache fácil, para aumentar a confiança e otimizar o tempo. "Procure acertar o que você domina mais", diz Maria Cristina Armaganijan.



Na prova de inglês, ela recomenda que o candidato dê mais atenção a sua capacidade de entender o sentido geral de um texto do que à ideia de que precisa saber todas as suas palavras. "Não existe pergunta de um vocabulário muito específico, e a resposta está no texto."



Henrique Braga lembra que a nota do candidato é calculada a partir da TRI (Teoria de Resposta ao Item). "Esse mecanismo leva muito mais em conta a coerência das respostas do que cada questão pontualmente, de acordo com o grau de dificuldade de cada uma."

Nesse tipo de correção, deixar de acertar questões mais fáceis e acertar outras de maior dificuldade pode não aumentar a nota do candidato. Por isso, não se deve gastar muito tempo nas questões mais difíceis. Priorize as que parecem menos complicadas.


Segundo Braga, "deixar de fazer uma questão mais fácil por falta de tempo é prejudicar a nota". "Se uma pergunta não faz sentido para o candidato, é melhor pular e no final voltar para o que ficou para trás." 

O que é preciso saber para a prova?

1. Aplicar as tecnologias da comunicação e da informação na escola, no trabalho e em outros contextos relevantes para sua vida;


2. Conhecer e usar língua(s) estrangeira(s) moderna(s) como instrumento de acesso a informações e a outras culturas e grupos sociais;


3. Compreender e usar a linguagem corporal como relevante para a própria vida, integradora social e formadora da identidade;


4. Compreender a arte como saber cultural e estético gerador de significação e integrador da organização do mundo e da própria identidade;


5. Analisar, interpretar e aplicar recursos expressivos das linguagens, relacionando textos com seus contextos, mediante a natureza, função, organização, estrutura das manifestações, de acordo com as condições de produção e recepção;


6. Compreender e usar os sistemas simbólicos das diferentes linguagens como meios de organização cognitiva da realidade pela constituição de significados, expressão, comunicação e informação;


7. Confrontar opiniões e pontos de vista sobre as diferentes linguagens e suas manifestações específicas;


8. Compreender e usar a língua portuguesa como língua materna, geradora de significação e integradora da organização do mundo e da própria identidade;


9. Entender os princípios, a natureza, a função e o impacto das tecnologias da comunicação e da informação na sua vida pessoal e social, no desenvolvimento do conhecimento, associando-o aos conhecimentos científicos, às linguagens que lhes dão suporte, às demais tecnologias, aos processos de produção e aos problemas que se propõem solucionar. 

Fonte: Uol



 

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