Crônicas do Puntel

Luiz Puntel: Alguém lê textão?


O peixeiro, querendo aumentar as vendas, comprou uma lousa e escreveu bem caprichada a frase: Hoje,vendo peixe fresco

 | ACidadeON/Ribeirao
12/7/2020 06:55

Professor e escritor Luiz Puntel

Banca de peixe de cais de porto. O peixeiro, querendo aumentar as vendas, comprou uma lousa e escreveu bem caprichada a frase:
HOJE, VENDO PEIXE FRESCO.

Um freguês, vendo a novidade, até elogiou a caligrafia do profissional, mas brincou:

- E ontem, o peixe não era fresco não?

Era, claro que era! Então, o freguês comentou que não havia necessidade de escrever o advérbio. O peixeiro olhou, pensou um pouco e concordou. Não tinha mesmo sentido escrever HOJE, se hoje é sempre hoje, oras!

Em seguida, o freguês perguntou:

- Qual dos peixes é de graça?

Nenhum, oras! Então, para que está escrito VENDO, se o peixeiro não dava, mas vendia peixes?

O peixeiro olhou para a lousa, entendeu que o freguês tinha razão, e - zapt! - lá se foi o VENDO.

Só ficou PEIXE FRESCO, certo? Mas, prosa vai, prosa vem, o freguês convenceu o peixeiro de que se ele vende peixe todo dia, o peixe era fresco, não era não? Claro que era! Lá se foi o FRESCO pro beleléu.

Ficamos só com o PEIXE, então? Parece que o paciente peixeiro havia chegado ao final do seu texto publicitário. Só que não!

Por quê? "Veja bem", disse o didático freguês, "Você vende mais alguma coisa na sua banca?

- Só peixes, oras!

Então... Então, leitores, nem é preciso dizer que o substantivo foi apagado, a lousa perdeu a sua função e o peixeiro continuou a vender seu peixe mesmo sem lousa.

E fica aqui a lição: ESCREVER É CORTAR PALAVRAS.

O original desta anedota não é meu não. É do Armando Nogueira, que achava que era do Drummond, que dizia que não era dele também não. Talvez seja do John Ruskin, autor inglês do século XIX. Sabe-se lá quem é o pai da criança. Uma coisa é certa: textão ninguém lê! 

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