Crônicas do Puntel

O alinhavar da libertação pessoal


Para eles, todos os pertences dos jovens cheiram a
Ocidente, ao demônio burguês ocidental

Luiz Puntel | ACidadeON/Ribeirao





31/5/2020 06:50



Na década de 70, entre os milhões de enviados pelas autoridades da Revolução Cultural Proletária às aldeias chinesas para serem "reeducados", já que tinham desvios burgueses, dois jovens são designados para uma aldeia em longínqua montanha. Só como curiosidade, foi o mesmo que aconteceu com Xin Jin Ping, atual líder supremo da China. 


Lá, encontram uma sociedade atrasada, arcaica, comandada por autoridades analfabetas, ignorantes, que desconhecem o que seja um despertador, um violino ou um caderno de receitas. Para eles, todos os pertences dos jovens cheiram a Ocidente, ao demônio burguês ocidental. 

Por outro lado, os reeducandos conhecem uma jovem, neta do alfaiate de uma aldeia próxima, também analfabeta como todos eles, mas inteligente, sagaz, uma graça de costureirinha. Assim a chamam, simplesmente por costureirinha. 

Este é a situação inicial do filme "Balzac e a costureirinha chinesa", filme que o leitor encontra facilmente no youtube. E o que Honoré de Balzac, escritor francês falecido há quase 170 anos, estaria fazendo na China dos anos 1970? 

Se você, leitor ou leitora, é voraz na leitura de livros, não de fake news, sabe que os romances têm um quê de eternidade que transcende seus autores, certo? Pois Balzac ali estava, em forma de livros, na mala de um dos reeducandos da aldeia. Roubados, os romances são escondidos em uma gruta, já que eram considerados, repitam comigo, demoníaca literatura burguesa ocidental.  

A descoberta dos livros desperta a curiosidade da costureirinha que pede que os dois amigos leiam as histórias que os livros trazem. Com a curiosidade pelas histórias que escuta avidamente, a jovem é despertada para o aprendizado do escrever e do ler. 

Com isso, a costureirinha, de analfabeta e ciosa das regras sociais da aldeia, transforma-se, liberta-se dos controles impostos às mulheres e decide ir embora dali. Questionada por um dos jovens, que consegue alcançá-la e pergunta o que fez com que ela se transforma-se, ela é taxativa: 

- Balzac! Foi Balzac que me transformou. - E a costureirinha se vai pela estrada afora, liberdade adentro. 

------------------------------- 

Puntel, achando os escritores um bando de burgueses desencaminhadores de costureirinhas.


Fonte: ACidadeOn





Faça download da crônica.

 

(16) 3623-6199

Av. Senador César Vergueiro, 590 - Jardim Irajá - Ribeirão Preto/SP