Crônicas do Puntel

A pandemia e o pandemônio


Para quem já leu sobre o mito da caverna de Platão, sabe que o filósofo metaforiza a dicotomia Ignorância versus Conhecimento


 | ACidadeON/Ribeirao


Recentemente, o ministro Mandetta foi questionado sobre sua ausência nas coletivas diárias sobre a pandemia. Na resposta, o ministro declarou que se recolheu para se afastar um pouco dos noticiários. E acrescentou que se dedicou à leitura. Segundo ele, leu novamente a Caverna de Platão, que já havia lido aos 14 anos. E, curiosamente, declarou que não conseguiu entender de novo o que Platão quis afirmar com o mito da caverna. É fácil de explicar, senhor ministro! O mito reflete o que estamos vivendo nestes meses. É a reedição virótica da caverna platônica. 

Para quem já leu sobre este mito, sabe que o filósofo metaforiza a dicotomia Ignorância versus Conhecimento. Fazendo uma sinopse do sumário do resumo do mito, Platão nos conta a respeito de prisioneiros que nasceram em uma caverna e estão, eternamente, acorrentados à Ignorância. Estáticos, sem poder se mexer ou virar a cabeça para trás, não sabem que as sombras que veem projetadas na parede, à sua frente, ao fundo da caverna, são produzidas por uma fogueira. Sem que saibam, ela está acesa sobre um muro, iluminando estrategicamente a parede, onde são projetadas as sombras que os prisioneiros veem eternamente. 

Se veem sombras, veem apenas, portanto, simulacro da realidade. No entanto, como nunca tiveram a possibilidade de comparar o que veem com a realidade fora da caverna, acreditam que estão diante da Verdade. Ao ver as sombras de uma mulher, ou cachorro, ou uma casa, projetadas à sua frente, creem que uma mulher é aquilo que veem, um cachorro é mesmo aquilo que veem, uma casa é aquilo que está na parede. Mas que absurdo, não? Sim, mas como não sabem que são apenas sombras de estatuetas projetadas na parede, acreditam piamente que aquilo é o mundo real. 

Se trouxermos a metáfora do mito para os dias atuais, o coronavírus nos obrigou a ficarmos dentro de casa, mas reteve um bom número de repentinos entendidos em pandemia na caverna da Ignorância. Como assim? 

Ora, quem saiu da caverna, quem estudou Medicina por anos, fez dissertação de Mestrado, tese de Doutorado; enfim, foi para a luz do Conhecimento, sabe dos protocolos de como um vírus se torna pandemia, ou não? No entanto, essa parcela de estudiosos, de repente, é contestada - pasmem! - por um youtuber palpiteiro que se arvora em expert em infectologia. Pode uma coisa dessas, Platão? 

E o pior é que não é um, não são dois, mas uma legião de pseudos entendidos em farmacologia, receitando este ou aquele remédio que vai, como num passe de mágica, debelar o tal vírus. Ou, outros experts em pandemias, que se arvoram em dar palpite, propondo flexibilizações as mais absurdas. Outros ainda propõem que todos se aglomerem ao máximo. Assim, segundo estes repentinos doutorandos em besteirol, um bom número vai morrer mesmo, fazer o quê, mas os sobreviventes continuam a vida, porque a Economia, musa do Deus Mercado, não pode parar. 

Se éramos cento e tantos milhões de técnicos de futebol há algumas décadas, agora, de repente, somos mais de duzentos milhões de coachs em saúde. Pode uma coisa dessas, Platão? 

Caramba, filósofo! Você escreveu o mito da caverna há mais de 23 séculos, mas é só acessarmos as redes sociais para constatarmos que milhares de pseudos especialistas estão que projetam simulacros da realidade nas paredes da Ignorância, jurando que é a mais pura Verdade. Veem sombras e acreditam que o simulacro delas é a Realidade. É a pandemia virando pandemônio! 

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Puntel, abrindo A República, onde está o livro VII, o do Mito da Caverna.

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