Crônicas do Puntel

O carro desgovernado e os velhinhos do asilo


"O motorista não sabe, leitores, mas, ao fazer a próxima curva, logo à frente, atingirá dez pessoas que, distraídas, atravessam a avenida"


Luiz Puntel | ACidadeON/Ribeirao29/3/2020


Um carro segue, em velocidade acima do permitido, por uma avenida. O motorista não sabe, leitores, mas, ao fazer a próxima curva, logo à frente, atingirá dez pessoas que, distraídas, atravessam a avenida. Ele não sabe, mas você sim, leitor ou leitora, que, se colocar um sinal de trânsito, com um desvio obrigatório, o motorista desviará o veículo para uma rua lateral, não matando os dez transeuntes, mas apenas três desavisados cidadãos que atravessam, também distraidamente, a rua lateral.   

Ou seja, está em suas mãos, leitores, colocar o desvio e decidir, solitária e rapidamente, já que o motorista continua a acelerar, se morrerão dez ou se morrerão apenas três pessoas. Que vai morrer gente, ah, isso vai! O que fazer? 

O primeiro pensamento que vem à sua mente é simples: já que não tem mesmo jeito, é preferível matar os três que atravessam a rua, em vez de dez. Com isso, matamos três, mas salvamos dez seres humanos.

Parabéns pela decisão tão humanitária! Agora, compliquemos um pouco. Olhando bem, os dez indivíduos que atravessam a avenida reparem! têm dificuldade em atravessar porque são dez velhinhos que, saindo do asilo ali perto, iam tomar vacina no posto de saúde duas quadras perto avenida. A maioria, você já percebeu, tem entre 80 e 90 anos, certo?  

Já os três que caminham pela rua lateral são jovens de 25 a 30 anos, na flor da idade e reparem! pela vestimenta, você percebe que são médicos, indo em direção ao hospital de campanha, rapidamente erguido no campo de futebol da cidade. Você já percebeu que são intensivistas, médicos que irão cuidar de infectados que contraíram o Covid-19, o vírus da morte. 

Complicou, certo? Sim, porque certamente, agora, você não sabe se coloca o sinal de trânsito, que desviará o nosso carro assassino para a rua lateral. Afinal, estes três jovens são mais úteis que os dez velhinhos que, mais dia, menos dia, morrerão, de corona ou sem corona, indo a óbito. Que morram os velhinhos, talkei?

Mas, observando melhor, leitor humanitário, leitora filantropa, entre os velhinhos distraídos há uma velhinha tão fofa que parece sua avó. Ei, pera lá, mas é a sua avó! E o velhote de mãos dadas a ela é seu avô! E, já que você observou bem, o velhinho caquético ao lado deles é aquele médico que salvou sua vida! Lembra daquela cirurgia complicada que os médicos o desenganaram, leitor, ou você, leitora? A equipe não queria nem operar, mas o velhinho caquético, experimentado cirurgião peitou a equipe e salvou você?

Agora você estão confuso e confusa; não têm mais certeza se desviam ou não o trânsito, certo? Acalmem-se! Vocês estão em boa companhia. Pela vida afora, filósofos, estrategistas militares, juízes, profissionais que tinham nas mãos a decisão de desatar o nó górdio, também ficaram embasbacados.  

O que é melhor, leitores indecisos: salvar a Economia em nome do Deus Mercado, ou sacrificar a vida dos velhinhos distraídos, que nem sabem que vão morrer daqui a pouco?  

*** 

Puntel, um dos dez velhinhos, olhando o carro desgovernado vir vindo em direção aos amigos do asilo. Cáspite!


Fonte: Jornal AcidadeOn

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