Crônicas do Puntel

De olhos e olhares


"Vai que o

beijo ou abraço atravessa a tela do celular"





Luiz Puntel | ACidadeON/Ribeirao



Gente, a coisa tá tão feia que uma conhecida de grupo, nas redes, ao enviar um zape-zape, justificou-se por que não se despedia com os costumeiros e protocolares beijos e abraços, fugindo da liturgia sadia dos cumprimentos. Vai que o beijo ou abraço atravessa a tela do celular, ela escreveu, te pego em cheio, afago ternuras de solidariedade por este momento tão tétrico e você se contamina?  

Em vez de beijos e abraços, portanto, mandou um olhar. Isso mesmo! Em vez de toques e retoques, pega lá um olhar meu, ela escreveu. Ainda respondi, com uma dúvida machadiana: "Fulana, mas o olhar é de ressaca, ou oblíquo e dissimulado?"
Ela, que é professora de literatura, entendeu a piada interna. E respondeu, em seguida, que o olhar não era de ressaca e nem de cigana oblíqua e dissimulada, como maldaram a respeito de Capitu.  

Congelemos a mensagem e expliquemos rapidamente esse tal olhar de ressaca e de cigana oblíqua e dissimulada. Segundo Bento Santiago, marido de Capitu, personagens do romance machadiano Dom Casmurro, sua mulher teria olhado para o cadáver de Escobar, amigo do casal, já no caixão, com o tal olhar de ressaca. Assim como o mar de ressaca puxa, arrasta, suga, Capitu teria, sempre segundo o ciumento Bentinho, tentado arrastar Escobar da morte para a vida, o que deu a maior dúvida da literatura brasileira e mundial: Capitu traiu ou não traiu Bentinho?  

O olhar que minha amiga me deitou não era também um olhar de cigana oblíqua e dissimulada, como o fofoqueiro José Dias, que morava de favor na casa do jovem Bentinho, havia denominado a vizinha. Esse sujeito envenenava a relação Bentinho / Capitu, porque queria ficar de bem com a mãe do garoto, que havia prometido que o filho ia ser padre. Lembram-se da história, pois não?  

Cáspite! Como diria Machado em uma crônica de 1878, que tipo de olhar era então, santa máquina de escrever, que Machado nem nunca usou, já que escrevia à mão, e mão esquerda! Minha amiga definiu o olhar que me mandou como um olhar de soslaio. E antes que você, leitor, vá dar um google para saber que olhar é este, ela explicou:
Ultimamente, nem abraço, nem toco ninguém. Só olho de soslaio, tipo olhar não olhando, olhando para todos com o rabo de olho, sem encarar ninguém de frente. Vai que a pessoa para quem olho me espirra uma piscadela, invadindo as íris e pupilas do meu olhar?  

***

Puntel, sem botar o nariz pra fora do buiaquinho da porta, só espionando pela rótula qual vizinho se atreve a lhe lançar um olhar olhorudo.


Fonte: A CidadeOn

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