Crônicas do Puntel

Monitoria ou a vassoura?


Nossa menina queria muito ser a monitora da classe. E tirou a nota mais alta. Mas, na hora de receber o posto de monitor, a professora deu o cargo a um menino

Luiz Puntel | ACidadeON/Ribeirao


Era uma vez uma menina de nove anos que estava no primário, em uma cidade bem distante chamada Nsukka, em um país mais distante ainda, chamado Nigéria. E esta história começa quando a menina estava no começo do ano letivo, ainda no primário. 


A professora, simpática, anuncia que daria um prêmio a quem tirasse a nota mais alta. Como premiação, este aluno seria o monitor da classe. E qual a graça em ser monitor? Ora, ele poderia anotar quem fez bagunça, o que já era um poder enorme. Enfim, iria se destacar dos coleguinhas. 


A nossa menina queria muito ser a monitora da classe. E, realmente, tirou a nota mais alta. Mas, na hora de receber o posto de monitor, a professora deu o cargo a um menino. Aliás, se me fizerem o favor de ler o parágrafo anterior, notarão que está lá a palavra monitor, não monitora, correto? Mas, não era este o combinado, era? Quem tirasse a nota mais alta, menino ou menina, teria a aprovação.  


E o curioso é que o primeiro homem a tirar nota foi o segundo lugar. E ele não tinha o menor interesse em anotar os bagunceiros, ou a andar pela sala com uma vara, símbolo do poder daquela turminha.  


Mas, como era homem; a nossa vencedora, apenas uma menina, ele ganhou o cargo. A jovenzinha nunca se esqueceu disso. Hoje, uma palestrante e escritora renomada, a jovem Chimamanda Adichie é de opinião que, se repetirmos algo por várias vezes, ele se torna normal. Sim ou não? Imaginemos a professora explicando a ela e à classe porque era um garoto o escolhido, e não ela, uma mulher:  


Chimamanda, é o seguinte, querida! Homens foram feitos para comandar. Por isso, o cargo de monitor é dele, e não seu, tudo bem? Para você, sobrou a vassoura. Tome e deixe tudo limpinho depois que terminar a aula. Sim, porque nós, mulheres, nascemos para cuidar da casa, do lar doce lar...

Esse e outros episódios que destilaram sempre o micromachismo fez com que Chimamanda não se aquietasse, não pegasse a vassoura, não se calasse. Ela mesma diz: 


"Se repetimos ou vemos uma coisa com frequência, ela se torna normal. Se só os meninos são escolhidos como monitores da classe, então, em algum momento nós todos vamos achar, mesmo que inconscientemente, que só um menino pode ser o monitor da classe." 


Chimamanda toma fôlego e continua:  


"Se só os homens ocupam cargos de chefia nas empresas, começamos a achar "normal" que esses cargos de chefia só sejam ocupados por homens. Eu tendo a cometer o erro de achar que uma coisa óbvia para mim também é óbvia para todo mundo. Um dia, eu estava conversando com meu querido amigo Louis, que é um homem brilhante e progressista, e ele me disse: "Não entendo quando você diz que as coisas são diferentes e mais difíceis para as mulheres. Talvez fosse verdade no passado, mas não é mais. Hoje as mulheres têm tudo o que querem." Oi? Como o Louis não enxergava o que para mim era tão óbvio?"  


Esse texto da nigeriana Chimamanda Adichie serviu de base para que os candidatos ao vestibular da Unicamp escrevessem, na prova de redação deste ano, uma crônica sobre o micromachismo nosso do dia a dia.  


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Puntel, perguntando se os leitores sabem o que é o Teste de Bechdel.

Fonte: A Cidade ON

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