Crônicas do Puntel

BÜCHERVERBRENNUNG


Diante da ordem do governador de Rondônia, que mandou retirar da prateleira das escolas obras importantes, reflitamos

Luiz Puntel | ACidadeON/Ribeirao



Gente, diante da ordem do governador de Rondônia, que mandou retirar da prateleira das escolas obras importantes; entre elas Macunaíma e Memórias Póstumas de Brás Cubas, reflitamos! Não chegou a retirar e nem queimar os livros porque houve uma grita geral, tal era a estapafúrdia decisão governamental.


Mas, não é a primeira vez que isso ocorre. Poderia citar muitos casos de queima de livros, até mesmo a enorme lista do Index Librorum Prohibitorum, da Igreja Católica, que vigorou até 1966, há apenas 54 anos. Poderia citar também queima de manuscritos Maias e Astecas, em 1560, queima de livros na União Soviética, ou nos Estados Unidos, durante o Macartismo, e em tantos outros lugares.


E, por falar em livros cassados e caçados, sempre me lembro de que, nos idos e vividos tempos da Redentora, tinha um delegado que prendeu um conhecido nosso, só porque o coitado tinha um romance chamado "O vermelho e o negro". Segundo a otoridade, com um título tão suspeito, a coisa só poderia ser um plano comunista camuflado, muito camuflado! Tanto isso era verdade que até o codinome do tal, que respondia por Stendhal, não constava da lista de subversivos procurados pelos órgãos repressores.


Quando disseram que o tal Stendhal era um escritor francês que havia morrido há mais de 100 anos, ele não se deu por vencido. Levantando o queixo, respirou fundo e saiu pisando duro, resmungando pateticamente que o comunismo é tão perigoso que ficou hibernado nas páginas da Revolução Francesa para ressuscitar bem no meio da delegacia dele.


E não podemos nos esquecer de Joseph Goebbels, ministro da Propaganda de Hitler, citado recentemente no imbróglio causado por Roberto Alvim, ex-secretária da Cultura. No dia 8 de maio de 1933, Goebbels falou, a diretores de teatro, uma frase que foi citada, quase palavra por palavra, por Alvim, o que causou sua demissão.


Dois dias depois, na noite de 10 de maio de 1933, Goebbels vociferava, na grandiosa Opernplatz - hoje, Bebelplatz-, praça da Ópera berlinense, um discurso contra toda a intelectualidade que não fosse alemã. Naquela noite, era promovida, por jovens alemães, a bücherverbrennung, ou seja, a queima de toneladas de livros - não apenas os 43 censurados em Rondônia. E Goebbels bradava:


"Meus compatriotas, estudantes, homens e mulheres alemães, a era do intelectualismo judeu chegou ao fim. O triunfo da revolução alemã abriu um caminho para o estilo alemão; e os futuros alemães não serão apenas homens de livros, mas homens de caráter, e é para este fim que queremos educá-los. Para que tenham, desde a mais tenra infância, a coragem de olhar diretamente nos olhos impiedosos da vida. Para repudiar o medo da morte e reconquistar o respeito por ela. Esta é a missão dos jovens, por isso vocês estão certos de, nesta hora tardia, entregar o lixo intelectual do passado às chamas. É uma forte, grandiosa e simbólica responsabilidade, uma responsabilidade que irá provar a todo o mundo que a base intelectual da República de Weimar está sendo derrubada agora; mas que a partir das ruínas irá crescer, vitorioso, o senhor de um novo espírito".


Só estou em dúvida se, depois da bücherverbrennung, da queima dos livros, e do inflamado discurso de Goebbels, a massa de jovens nazistas canta o "Deutschland über alles, Über alles in der Welt", o "Alemanha acima de tudo, acima de tudo no mundo". Acho que não! Devo ter me equivocado. Só posso ter me equivocado! 


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Puntel, orando: "Oh, bendito o que semeia livros à mão cheia e manda o povo pensar! O livro, caindo n´alma, é germe, que faz a palma, é chuva, que faz o mar!"


Fonte: A CidadeOn

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