Crônicas do Puntel

Quarentena ou dezoitena?


Usar máscara, não usar máscara; espirrar ou segurar o espirro; sair de casa ou ficar hibernado como um urso; enfim, o tal coronavírus mata ou não mata? Que medo!


Luiz Puntel | ACidadeON/Ribeirao

E lá vem o coronavírus! E com ele uma série de questionamentos. Como disse um repórter da CBN ainda nesta semana, de certezas, temos uma bolina de gude; de dúvidas, uma bola de futebol.  


Portanto, pânico geral; usar máscara, não usar máscara; espirrar ou segurar o espirro; sair de casa ou ficar hibernado como um urso; enfim, o tal coronavírus mata ou não mata? Que medo! 


E, como vivemos sob a cultura do medo, achamos que será uma derrocada completa da Humanidade, pior que a peste negra, na Idade Média, que dizimou um terço da população da Europa. Como já nos acostumamos com a violência urbana, violência contra a mulher, violência da corrupção, violência do trânsito, violência da dengue, que mata muito, mas muito mais, achamos que é o coronavírus, sim, que nos levará ao fim do mundo. 


Não, não quero não relativizar o problema, afirmando que não é tão sério. Pelo contrário! É tão sério que a França enviou um avião para buscar os franceses que estavam no epicentro do problema e outras nações também agiram rápido. E os franceses, e os italianos, e os belgas e os ingleses, e os americanos, todos ficarão em quarentena por quatorze dias, que é o período de incubação do vírus. 


Pronto! Bastou um repórter usar esta expressão - "quarentena por quatorze dias" -, que os zelosos guardiões da língua pátria torceram o nariz apontando um deslize gramatical. Já vejo posts no face: "Como a imprensa usa uma expressão tão deletéria, tão infesta, tão perniciosa contra o idioma pátrio?" Ou este: "É um acinte contra o berço linguístico onde Camões bebeu, das águas do Mondego, o sublime palpitar do alfabeto português!"  


Caramba! Com esse desconhecimento histórico e geográfico, acabam de furar o outro olho do poeta mor da língua! E vai, um desses zelosos guardiões manda mensagem a este escriba, denunciando, com ríspidas reprimendas, o descaso com o vernáculo de um Herculano, de um Bilac, de um De Assis. 


"Professor, estou no aeroporto, embarcando para São Paulo, mas queria seu abalizado comentário sobre a estapafúrdia construção vocabular da imprensa, nomeando um recesso deambulatório de quatorze dias como quarentena. Isso é um absurdo contra nossa língua que... blá blá blá... e mais blá blá blá!  


A mensagem era extensa, e abreviei para ele não perder o voo e vocês, leitores, não perderem a paciência, conseguindo ir até o fim da leitura desta crônica. Vesti a sapiência do professor Pasquale, que, confesso, não tenho, e tentei, primeiramente acalmar o dito cujo para depois explicar a confusão gramatical. E notei que ele ficou surpreso e um pouco ofendido quando perguntei se ele "embarcava" em um avião dali a pouco.  


"Claro que sim", ele foi positivo operante e deve ter olhado para o portão de "embarque" para conferir se a aeronave já estava posicionada para receber os passageiros.  


Resumindo a troca de mensagens, leitores, ele estranhava uma quarentena de quatorze dias, mas não estranhava que "encaixou" sua bagagem na esteira da companhia aérea, que "embarcaria" em uma aeronave, entre outros usos estranhos que fazemos das palavras, emprestando um sentido diferente do literal. 


A este mau (bom) uso, dá-se o nome de catacrese, aquela figura de linguagem que aprendemos no Ensino Fundamental, que dá conta de emprestarmos termos para definir objetos ou situações como a da "quarentena", ou seja, a de confinar pessoas por um certo tempo. Ou dá para colocar os possíveis infectados em uma "quatorzena"?  


Imagino o nosso guardião da língua pátria "embarcando" no avião, levantando o "braço" da poltrona para se assentar e colocar o "encosto" na posição vertical, e para afastar possíveis "encostos" e maus-olhados, talvez inicie uma "novena" de poucas horas até seu destino, se é católico e tem medo de avião. Mas é do avião que ele deve ter medo? Ah, figuras de linguagem!  


Catacrese resolvida, é certo que os europeus e americanos já estão em quarentena na França. Quanto aos brasileiros, já devem ter chegado de volta, mas acabo de ler que ficarão dezoito dias de quarentena. Ai ai ai! Já já outro guardião da língua pátria vai mandar mensagem perguntando se existe quarentena que é uma "dezoitena"!


_____________________________

 

Puntel, estudando as figuras de linguagem. Há umas tão complicadas quanto nome de vírus: anadiplose, homeoteleuto, isócolo, epímone e por aí vai ... vai ou vírus?


Fonte: A CidadeOn

Faça download da crônica.

 

(16) 3623-6199

Av. Senador César Vergueiro, 590 - Jardim Irajá - Ribeirão Preto/SP