Crônicas do Puntel

Um clitóris poético


Dependendo da moral vigente ser mais opressiva, os anatomistas (sempre homens, nunca uma mulher!) simplesmente omitiam essa peça anatômica


Luiz Puntel | ACidadeON/Ribeirao
O clitóris, pelos séculos e séculos, apareceu e desapareceu dos livros de Anatomia. (Quem quiser conferir e mergulhar no assunto, é só acessar "Clitóris, prazer proibido", no Youtube.) Dependendo da moral vigente ser mais opressiva, os anatomistas (sempre homens, nunca uma mulher!) simplesmente omitiam essa peça anatômica. 

Em março deste ano, no Dia Internacional da Mulher, para darmos um exemplo mais recente de excisão do clitóris, o presidente Bolsonaro ordenou que a Cartilha de Saúde fosse reformulada, já que trazia ilustrações de clitóris e pênis. "São figuras que não cabem bem, com toda certeza, para meninos e meninas", afirmou o presidente. 

Portanto, de novo, (perdoem-me o trocadilho) o clitóris foi pro saco! Mas, eis que, cinco meses depois, ele ressurge, brota, aparece! (DJ Matheus Souza, sobe a Nona de Beethoven, please!) Sim, leitores, ele ressurge e será relançado hoje, domingo, na Praça da Bicicleta, mais precisamente no food truck Limão Gastronomia. Quem perdeu o lançamento na Casa Vill´Arte, pode adquirir o livro neste matinal domingo. 

Vocês leram certo, sim, leitores! O clitóris ressurge e será lançado nesta manhã de domingo, a partir das dez, na Praça da Bicicleta. Como assim? Para não haver dúvidas, explico: Matheus Arcaro, professor de Filosofia, romancista, contista e poeta lançará o seu livro de poemas "Um clitóris encostado na eternidade". São mais de 40 poemas e, neles, o professor de Filosofia e Sociologia do Colégio Metodista, usa o processo que se pode definir como um trabalho de "carpintaria poética". 

Assim como o carpinteiro aplaina, lima, lixa, desempena, entalha e encaixa a madeira, na "carpintaria poética", o poeta também lima, aplaina, lixa, recria, reconstrói as possibilidades do jogo de entalhar e encaixar vocábulos. 

Essa carpintaria se inicia no poético título do livro. Poético? Quantos clitóris já vimos encostados na eternidade? Apenas este, apenas neste título, único, singular, clitóris que não se repete. Mas, não existem clitóris encostados na eternidade, dirão os que opinam não caber bem o tal clitóris. O clitóris é do poeta, e ele, como diria sem trocadilhos, por favor! Picasso, encosta seu clitóris onde bem entender. 

A função poética, como nos ensina Roman Jakobson, e todo aluno do Ensino Médio sabe disso, é justamente o inusitado do encaixe, o inusitado do entalhamento das palavras. É o recriar de novos significados, dando nova roupagem às palavras. Como diria Rosa, o Guimarães, isso se dá porque as palavras têm canto e plumagem. 

Matheus Arcaro sabe disso. Já vimos essa belezura de carpintaria poética na construção dos personagens de seus contos e também de seu romance "O lado imóvel do tempo". E vemos esse fazer em todos os poemas do Clitóris, nos mais sintéticos, como "Vida punhado de casos / acasalados pelo acaso", ou o pessoano "Realidade é a imaginação de terno e gravata". Pessoa já disse que não se pode mesmo pensar com a civilização à roda do pescoço, ora pois! E também vemos essa belezura de carpintaria poética nos mais extensos, como "Despedida" ou "Análise Poética". 

Alias, por falar em análise poética, vale a pena registrar que a epígrafe que abre o Clitóris é do Paulo Leminski. Nela, o poeta curitibano fala da inutilidade da poesia, do seu inutensílio. A poesia não tem um porquê, não está a serviço de nada. Querer isso é o mesmo que querer que o orgasmo tenha um porquê. 

Lembrei disso quando li o poema "Razão arrasada", que já é poético já pela antitética relação de "razão", que é "arrasada", sem razão. E tomo a liberdade de transcrevê-lo: "Assim que terminei, surgiu-me a razão atirando sindicância: Onde guardaste a coerência, poeta? / Acariciei o poema pronto, voltei a vista à inquisidora e respondi num tom corado: Poesia é espiral em linha reta. / Com o chicote entre as pernas e as vergonhas à mostra, foi-se embora a senhora alérgica a metáforas."
 
Metáforas, o dizer desdizendo, o terror e o horror dos obtusos linha-reta, sem o molemolejo das espirais curvas e sinuosas protuberâncias vocabulares do dizer por subterfúgios. Eita Clitóris encostado na eternidade, fazendo cosquinha na mente da gente!
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Puntel, tendo orgasmos literários! (Relançamento de "Um clitóris encostado na eternidade" na Praça da Bicicleta, hoje, 10 da manhã.)
fonte: ACidadeOn


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