Crônicas do Puntel

George Clooney, muito prazer


Vocês já tiveram a oportunidade de se autodescrever para alguém? Isso mesmo! Imaginem-se diante de uma pessoa que não enxerga nada e tente se autodescrever

Luiz Puntel | ACidadeON/Ribeirao
Leitores, vocês já tiveram a oportunidade de se autodescrever para alguém? Isso mesmo! Imaginem-se diante de uma pessoa com deficiência visual severa, que não enxerga absolutamente nada, e tente se autodescrever. 

Confesso que, por dever de ofício, centenas e centenas de vezes, ensinei alunos a trabalharem com descrição, seja de um espaço, um quadro, uma pessoa. Mas, na quinta-feira passada, na ADEVIRP (Associação de Deficientes Visuais de Ribeirão Preto), participei de uma oficina sobre AUDIODESCRIÇÃO, coordenada pela Flávia Machado. O evento foi em comemoração ao Dia Nacional do Voluntário. Simpática, fluente em suas argumentações, a jovem coordenadora de Acessibilidade da TV Aparecida projetou um vídeo feito pela Globo, quando da visita do jornalista Pedro Bial à Adevirp, agraciada que fora com verba do Projeto Criança Esperança. 

O vídeo tem audiodescrição, ou seja, um narrador que traduz imagens em palavras, descrevendo para os que não enxergam, o que nós, videntes, conseguimos ver na tela. Assim, os deficientes visuais conseguem imaginar os espaços, as cenas que são projetadas na tela.  

A audiodescrição já é lei há tempos, e os televisores modernos possibilitam este tipo de recurso. Mas, embora seja lei, ora a lei! Ou seja, são poucos os programas televisivos que contêm audiodescrição. Cinema, então, deixa muito a desejar! É a luta de sempre, ou seja, lutar pela inclusão é sempre uma batalha árdua, já que temos uma educação meritocrática, que privilegia os que se destacam, os que chegam em primeiro lugar, os que fazem poeira para os outros. 

Depois da projeção do vídeo, Flávia nos desafiou, a nós, videntes, fazer dupla com um deficiente visual e nos autodescrever. Do meu lado estava o Wilson, de Sertãozinho, que, há alguns meses, tem frequentado a Adevirp. O jovem senhor perdeu a visão há oito anos. Motivo? Consequências da terrível e silenciosa diabete. Quando viu, já era!  

Confesso que, mesmo sabendo detalhar a descrição de um espaço, de uma paisagem, foi com certo acanhamento que comecei a me descrever para o homem à minha frente:  

- Wilson, eu tenho 1,69 de altura, portanto sou bem mais baixo que o Bial, que tem 1,92 ou o Bonner, que mede l,85. Uso cabelos curtos e eles já são grisalhos... E lá fui eu compondo os traços fisionômicos: testa larga, sobrancelhas espessas, lábios finos, pelo nas ventas, o vínculo das rugas, nariz e queixo normais, o sorriso simpático, etc.
 
Gente, quando terminei o exercício, Wilson sorriu bondades, certamente duvidando estar diante de uma pessoa que não era eu. Só faltou ele dizer:
 
- Caramba! Então, você é o George Clooney? Muito prazer!
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Puntel, tendo crises de "si si", como diz o dr. Marcelo Missiato, ou seja, "Si si achando!"
fonte:ACidadeOn


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