Crônicas do Puntel

Acentos e assentos, uns tormentos


A diferença entre doida e doída é um acento, vejam só! Acento lembra assento, mas assento não tem acento, como acento também não

Luiz Puntel | ACidadeON/Ribeirao
Uma vez fui surpreendido por uma declaração no mínimo inusitada. Ao me aproximar do caixa da padaria de sempre, depois de comprar o pão do dia a dia, a proprietária tomou coragem e, pedindo desculpas, me confidenciou: 
- Professor, posso enunciar uma assertiva que há tempos estou para lhe dizer? 

Aquele jeito estranho de empregar as palavras parecia até questão de vestibular, tirada de um livro qualquer do José de Alencar. Surpreso, sorri e a incentivei:
- Claro! Fique à vontade!
- Sabe o que é? ela assumiu uma postura bem mais natural, que é a linguagem usada quando falamos, a coloquial. Eu vejo o senhor entrar na padaria e já me dá calafrios.  

Eu já ajeitava a gola da camisa polo, achando que os calafrios poderiam ser erupções sentimentais, quando ela atalhou e emendou de trivela:
- É que eu tenho um medo danado do senhor! E sorriu, envergonhada, mas feliz por desabafar um segredo que a incomodava há tempos.

Resumindo, ela confessou que minha presença, a de um professor de Língua Portuguesa, lembrava seu tempo de menina, na escola, tirando notas baixas na matéria em questão, porque ela tinha dificuldades em análise sintática, uma confusão danada de sujeito, predicado, oração isso, oração aquilo, ai, um horror!
 
No fim, demos boas risadas, porque a Língua Portuguesa, como qualquer língua, é mesmo complexa, tendo suas nuances, suas variantes, detalhes que metem mesmo medo em crianças, muito mais do que o bicho-papão.
 
Pois, foi dela, da minha dona da padaria, que me lembrei outro dia ao ler um post do Facebook do professor Regalo, amigo das antigas, ainda firme e forte no batente da educação. E tomo a liberdade de transcrever algumas pérolas do post.  

A primeira delas é que a diferença entre "doida" e "doída" é um acento, vejam só! Acento lembra assento, mas assento não tem acento, como acento também não. E se vocês pensam que a confusão para (palavra que antigamente tinha acento, mas não tem mais) por aí, enganam-se. Assento é embaixo, já acento é em cima. E fiquem sabem que "embaixo" é junto e "em cima" é separado.
 
E o post continua a elencar palavras que se parecem, que são escritas iguais, outras que se escrevem de maneira diferente, mas que são parecidas, ainda outras que são parecidas, mas que têm pronúncia diferente e tal e coisa e loisa. Essa confusão danada tem nome, mas nem vou falar em homógrafas, homófonas, homônimas, parônimas porque talvez, leitores, vocês tenham faltado à esta aula lá na sétima série e vão levar zero se a gente continuar a insistir. Aí vão me tachar de chato, eu que pago minhas taxas em dia, embora a taxa que paguei de uma caixinha de tacha outro dia me deixou chateado para caramba! 

Chega! E você, minha medrosa proprietária da padaria, se me lê neste exato momento, perdoe-me por lembrar deste trauma que nós, os lentes de português, que já usamos lentes há tempo, causamos em nossos alunos por causa de termos tão complexos!

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Puntel, aproveitando que é domingo, indo à feira, comprar uma cesta de morangos para comer após a merecida sesta! Isso porque se deixar para sexta-feira a cesta de morangos...
fonte:ACidadeOn



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