Crônicas do Puntel

Criança é profissão?


Crianças ou adolescentes que começam a trabalhar desde cedo enrijecem o caráter, tomam tento na vida e são cidadãos prestantes no futuro?

Luiz Puntel | ACidadeON/Ribeirao

Metamos a colher na polêmica. Crianças ou adolescentes que começam a trabalhar desde cedo enrijecem o caráter, tomam tento na vida e são cidadãos prestantes no futuro? Vejo nessa polêmica um argumento perverso. Isso porque as redes sociais foram inundadas por declarações de adultos, muitos palpitando que trabalham desde tenra idade e isso só concorreu para terem caráter de fibra, cantando loas e boas ao "viva o trabalho infantil". É perverso porque crianças e adolescentes que trabalham são divorciados de um futuro promissor.
 
Vou citar um exemplo pessoal. Trabalho desde os quinze anos de idade, tendo sido o office boy mais ligeiro dos Campos Elíseos. Eu ia da rua Patrocínio, onde estava instalada a firma Braghetto & Leão, até o centro da cidade, mais rápido e vespante do que o José, o ciclista do belo conto de Dalton Trevisan. Embora eu me lembre com carinho do dr. Leão, do "seu" Amadeu, do "seu" Santinho, do "seu" Padilha, do Pareschi, do Otaviano, do Carlos Alberto, de tantos que fizeram parte da minha adolescência, tanta pedalação, suor e cansaço não foi o fator preponderante para enrijecer meu caráter, tomar tento na vida e nem ser cidadão prestante. Outros fatores concorreram também para isso: a amizade e parceria dos colegas de trabalho, a família, a orientação de minhas irmãs mais velhas, a leitura de boa bibliografia e os estudos.
 
Lembro-me de que trabalhava e estudava à noite. Houve um momento em que precisei parar de trabalhar para cursar o Ensino Médio de maneira a ter mais acessibilidade à educação formal. Daí serem muito românticas declarações de que trabalhar desde pequeno nos faz mais isso ou mais aquilo. Balela! Criança e adolescente devem estar envolvidos com estudos regulares, que os capacitem para a profissionalização futura. 

Só para dar um exemplo de como esse tema, em países sérios, é tratado com seriedade, lembro-me, há alguns anos, quando escrevia um romance juvenil chamado "Missão no Oriente". Trata-se de uma narrativa que conta a vida de dekasseguis, estrangeiros que vão trabalhar no Japão em busca de melhor posicionamento profissional. Lembro-me de que, pesquisando sobre os brasileiros que lá estavam, chamou-me a atenção uma notícia no mínimo contraditória a essa ingênua polêmica de crianças e jovens ingressarem desde cedo no mundo do trabalho.
 
Policiais japoneses faziam ronda normal por Hamamatsu, cidade de mais de 800 mil habitantes e 12 mil brasileiros dekasseguis; portanto, uma das maiores cidades de concentração brasileira. Eis que, de repente, flagraram uma criança andando por uma praça. Imediatamente, quiseram saber o que o garoto fazia, àquela hora, flanando pela cidade. Pelo sistema educacional japonês, ele deveria estar na escola, e não gazeteando, enforcando, ou cabulando aula, chamem como quiser à atitude do jovem aventureiro. No Japão, não se encontram crianças andando pelas ruas. Obrigatoriamente, devem estar em sala de aula.
 
Questionado, o jovem relatou que, em vez de ficar na escola, onde seus pais o deixaram, ele resolveu driblar o porteiro, fez que entrou, saiu e foi dar uma volta pela cidade. Imediatamente, o nosso aventureiro peregrino foi conduzido à escola. Em seguida, os policiais foram até a empresa onde os pais dele trabalhavam e só não passaram uma severa repreensão nipônica porque os pais davam como certo de que ele entrara na escola naquela manhã. 

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Puntel, sugerindo aos leitores que assistam ao documentário "Profissão Criança", de Sandra Werneck. São só 35 minutos de projeção, talkei?

fonte: ACidadeOn

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