Crônicas do Puntel

Arco de fogo


Ali não faltam ameaças, tiros, incêndio em viaturas, toras atravessadas na estrada, visando sempre boicotar a rotina de estancar a sangria da Amazônia

Luiz Puntel | ACidadeON/Ribeirao-30/6/2019


Escritor Luiz Puntel  (Mastrangelo Reino / Arquivo A Cidade)

Duas picapes trafegam sob um túnel de gigantescas árvores. É como se a selva abraçasse os veículos. É madrugada, mas chove desde o fim da tarde. E a chuva insistente piora sensivelmente a estrada. Mas, será que podemos dar o nome de estrada ao lamaçal quase intransponível que separa os dois veículos da cidade de Santarém, capital do Pará? 

Há oito horas rodam pela imensidão da Floresta Amazônica. A picape que corta a escuridão à frente, sob raios que explodem como granadas no infinito da selva, é dirigida por Alessandro Andrade, gerente regional do Ibama, conhecedor da região. Logo atrás, uma L 200 é dirigida por Henrique, delegado da Polícia Federal. O ano é 2010; setembro de 2010, para sermos mais precisos. 

O delegado Henrique está há dois meses na chefia da Operação Arco de Fogo, a OAF. Terão sucesso com a operação? Não sabem. O que desejam de imediato é conseguir chegar à base, em Santarém. No entanto, as notícias que recebem, quando conseguem um esmaecido contato via celular, não são nada animadoras. Pelo contrário! A 300 km dali, no município de Uruará, entre Altamira e Itaituba, uma picape da Federal acaba de ser incendiada. É o recado macabro para que os federais desistam da operação iniciada há dois anos, que visa combater o criminoso desmatamento sistemático da mata amazônica. 

Os três parágrafos iniciais desenham rapidamente o clima que enfrentam os homens da lei nesta geografia de faroeste caboclo. Ali não faltam ameaças, tiros, incêndio de viaturas, toras atravessadas na estrada, valas abertas de cinco por dois metros de profundidade visando sempre boicotar a rotina de estancar a sangria da Amazônia. Isso sem contar com a interferência do universo político, local e estadual, que tem sempre a lucrar com os desmandos em oposição à lei. Lei, ora a lei! 

Pronto! Está delineado o enredo de Arco de Fogo, romance escrito por Edson Geraldo de Souza, delegado da Polícia Federal, e por João Carlos Borda, jornalista da EPTV. A quatro mãos, os dois criaram uma narrativa cinematográfica, publicada pela Editora Nova Conceito, que, embora ficcional, reflete o drama que continua, ou seja, a luta diária e constante para estancar o desmatamento que, não esperamos, só termine quando não houver mais nenhuma árvore a ser derrubada pelas implacáveis motosserras. 
 
------------------------------------------------------------- 
Puntel, na fila de autógrafos, quarta-feira passada, na Livraria Cultura do Shopping Iguatemi. 


Fonte: A Cidade On

Faça download da crônica.

 

(16) 3623-6199

Av. Senador César Vergueiro, 590 - Jardim Irajá - Ribeirão Preto/SP