Blog do Puntel

AO VENCEDOR, AS BATATAS!

Puntel

       Um livro que passou a fazer parte da lista obrigatória de obras literárias da FUVEST deste ano de 2019 é Quincas Borba, de Machado de Assis. Como se sabe, este é o segundo livro da fase realista do “velho bruxo”, como Drummond o apelidou. 

Nele, temos a figura do simpático e ingênuo professor mineiro Pedro Rubião de Alvarenga, que herda a fortuna de Joaquim Borba dos Santos, o lunático Quincas Borba. Uma vez rico, o ex-professor abandona sua pequena e pacata Barbacena e se muda para a Corte, ou seja, o Rio de Janeiro. 

Duas questões a que os candidatos à FUVEST precisam ficar atentos: o que quer dizer a frase “ao vencedor, as batatas!”, proferida por Quincas Borba? A segunda questão é a respeito do título do romance. Ele tem este nome em homenagem ao doador da fortuna ou não? 

Quanto à primeira, é interessante que os candidatos leiam com atenção o capítulo 6 do romance. Nele, o filósofo Quincas Borba explica a seu dedicado enfermeiro Rubião um dos pilares de sua teoria, o Humanitismo. Depois de explicar como morreu sua avó, Quincas disserta sobre não haver morte. O que há é expansão das formas. E o lunático filósofo dá o famoso exemplo de duas tribos rivais e a diminuta plantação de batatas. 

Se não houvesse guerra entre as tribos, todos os índios morreriam, pois não havia batatas para todos. Guerreando, uma tribo vence, se alimenta com as batatas e consegue ter forças, transpor montes, indo à procura de mais alimentos. É a metáfora, os candidatos precisam entender, da meritocracia, do darwinismo social, ou seja, só sobrevivem os mais fortes, os que merecem as medalhas, os louros da vitória.   

Quanto à segundo questão, o romance tem o nome do filósofo ou de seu cão, a quem deu o nome de Quincas Borba, para continuar vivo no animal? Na verdade, isso não fica claro. Leiamos, leitores, o último capítulo, o da morte do cão e observem como é dúbia a explicação: 

“Queria dizer aqui o fim do Quincas Borba, que adoeceu também, ganiu infinitamente, fugiu desvairado em busca do dono, e amanheceu morto na rua, três dias depois. Mas, vendo a morte do cão narrada em capítulo especial, é provável que me perguntes se ele, se o seu defunto homônimo é que dá o título ao livro, e por que antes um que outro, — questão prenhe de questões, que nos levariam longe... Eia! chora os dois recentes mortos, se tens lágrimas. Se só tens riso ri-te! É a mesma coisa. O Cruzeiro, que a linda Sofia não quis fitar, como lhe pedia Rubião, está assaz alto para não discernir os risos e as lágrimas dos homens.”

 Ah, Machado, seu maganão! 


Luiz Puntel, setembro de 2019. 


 

(16) 3623-6199

Av. Senador César Vergueiro, 590 - Jardim Irajá - Ribeirão Preto/SP