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A RESPEITO DO LIVRO “MENINOS SEM PÁTRIA”, CENSURADO EM UMA ESCOLA DO RIO DE JANEIRO.

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Foi com surpresa que, no começo deste mês de outubro de 2018, tomei ciência de que “Meninos sem pátria”, livro de minha autoria, foi retirado da lista de leitura do Colégio Santo Agostinho, do Rio de Janeiro.

            Esse livro foi escrito há mais de 30 anos e aborda, sim, fatos acontecidos no tempo da Ditadura Militar iniciada em 1964. Faz parte da história política brasileira que houve a destituição do presidente da República, houve o fechamento do Congresso e a intervenção nos três poderes constituídos. E, com a radicalização política, houve perseguições àqueles que não compactuavam com o poder instituído.

            A história do livro “Meninos sem pátria”, embora seja ficção, é baseada em fatos reais, ocorridos com centenhas de brasileiros que, para se verem livres de perseguições, acabaram por se exilar em países vizinhos.

Na época, eu havia lido um testemunho emocionante de Teresinha Rabêlo, no livro “Memórias das Mulheres do Exílio. Ela, mulher do jornalista José Maria Rabêlo, teve que fugir do país com seus filhos pequenos, alguns ainda de colo. A dramaticidade do seu relato foi a motivação que tive para escrever a história de uma família que, também por motivos políticos, se exila. Não é a história da família Rabêlo, que aí seria uma reportagem, mas ficção baseada nos relatos feitos por Teresinha.

“Meninos sem pátria”, nestes mais de 30 anos, foi campeão de adoções em escolas pelo Brasil afora. Eu mesmo estive presente a centenas e centenas de escolas, inclusive no Rio de Janeiro, para conversar com os alunos, discutir enredo, personagens, a carpintaria da ficção. E, curioso, é que, nestes anos todos, nunca o livro sofreu censura, ou alguém tenha questionado, acusando-me de fazer qualquer tipo de doutrinação, política ou não. Pelo contrário, a discussão com os alunos sempre versou sobre fatos históricos, a que todos têm acesso aqui e ali, ainda mais agora que a internet democratiza a informação.

Se interpretarmos corretamente o que está no livro, conclui-se claramente que não há doutrinação desta ou daquela coloração política. Há, sim, e isso é verdade, a indignação do jovem personagem, de sua família e amigos por estarem exilados pela discordância política com o regime em vigor.

Isso é histórico! Retirar o livro da lista, ou seja, da leitura já iniciada pelos alunos, a meu ver, embora eu respeite a decisão da coordenação do colégio carioca, é um desserviço à formação dos estudantes. Ao serem questionados por um grupo de pais, seria muito mais positivo que os responsáveis pelo colégio mantivessem a leitura, propusessem a sequência do trabalho já iniciado, o debate, a discussão do contraditório, os prós e os contras, do que preconceituar que a narrativa tivesse a finalidade de doutrinar jovens estudantes.

O que ficou de positivo deste imbróglio foi, não apenas a manifestação de apoio de alunos e pais do colégio em questão, mais também as milhares de mensagens positivas, publicadas nos sites da imprensa online, que replicaram o ocorrido. Minha gratidão a todos que se solidarizaram, demonstrando que democracia se faz ao dar voz a todos os lados, não calando a voz deste ou daquele cidadão.

 

Luiz Puntel 


 

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