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PARADOXO CONTEMPORÂNEO: TRABALHO E ALIMENTAÇÃO

“O trabalho é a força que movimenta o homem”. Essa máxima seria lida, pelo homem contemporâneo, da seguinte forma: “O trabalho proporciona o desenvolvimento econômico ao homem”. Mas nem sempre a paráfrase foi válida.

Nas sociedades “primitivas”, o trabalho tinha todo um significado simbólico. Essas sociedades tinham no cerne de sua cultura os ritos, que englobavam o que conhecemos hoje como religião, trabalho e arte. Os homens celebravam a vida, a fertilidade, através de rituais que envolviam esses três aspectos. Não visavam a nenhum tipo de  “acúmulo”. Não faziam planos de lucro. Não tinham nem a visão de produção enquanto tal. Nem podiam, já que até a visão do tempo era diferente: ele era cíclico, como a natureza, e não irreversível como o vemos hoje. O trabalho, nessas sociedades, não tinha de forma alguma o objetivo de qualquer exploração. Não promovia nem a promoção nem a degradação: era simplesmente intrínseco ao homem, causa e conseqüência de sua vida em sociedade.

Com o passar do tempo, os ritos desmembraram-se nas três vertentes já citadas e o trabalho – assim como a arte e a religião – ganhou um significado diferente. O homem passou a ter consciência dos seus vários planos de existência. Enquanto a arte passa a ser “necessária pela magia que lhe é inerente” (Fischer, Ernest. A necessidade da arte), o trabalho passa a fazer parte da realidade chamada imediata. Esse quadro passa a ser “patológico” quando o “imediatismo” domina toda a relação humana. O trabalho vira, assim, mercadoria. Nesse momento, o trabalhador passa a estar totalmente separado daquilo que produz. Segundo Guy Debord, com essa separação vem a formação de uma imensa massa de indivíduos iguais entre si, porém distantes, imersos cada um na sua alienação. Até a religião passa a contribuir para esse fenômeno, desvirtuando-se de seu significado primitivo e essencial – o de promover ao homem um outro tipo de existência, distanciando-o do imediatismo. O calvinismo prega o trabalho como salvação – isso não significa nada se comparado à mercantilização da fé, conseqüência direta da alienação e causa de sua perpetuação. O  calvinismo dizia que o trabalho promove; mas o uso do trabalho para a compra e venda da fé certamente degrada.

Na sociedade atual, tudo perdeu seu significado essencial. É a “Sociedade do Espetáculo”, de Guy Debord, em que a aparência é vivida como se fosse verdade. A partir do momento em que o homem viu-se separado – do que produz, do seu semelhante e de si mesmo - houve uma mudança geral no significado do trabalho. Ele em si, virou mercadoria. Não existe mais o valor de uso – só o valor de troca ( usando as idéias de Marx). Instituiu-se a realidade imediata como única. E o imediatismo como lei suprema de todas as coisas. E, para tornar o contexto ainda mais consolidado e irreversível: tirou-se do trabalhador toda a sua consciência. Na sua forma atual, o trabalho é causa direta de alienação. E a alienação é o maior dos males, fator primeiro da degradação humana. E a grande peste contemporânea. Nega ao homem a consciência de sua realidade (pode-se dizer que lhe nega a vida!), de seus problemas. E nega, assim, qualquer capacidade que ele teria de combatê-los.

Clara Bonfim Cecchini

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