Oficina Literária Puntel


Unicamp
O TRABALHO: NOVO INSTRUMENTO DE DEGRADAÇÃO


Fábula, provérbios, ditos populares. “O trabalho dignifica o homem”, “o trabalho liberta”. A referência ao trabalho é constante na literatura e em outras formas de expressão ideológica. O trabalho e o homem parecem eternamente ligados. A caracterização de um período histórico, de um modo de produção, da estrutura e da conjuntura de dada época passam necessariamente pela caracterização do tipo de trabalho realizado no período, tanto em relação à sua forma de recompensa – salário, casa ou chibata – quanto em relação à sua produtividade e eficácia. Aparentemente, o homem sempre manteve relações de trabalho. É essa expressão eternizada do trabalho que coíbe a reflexão quanto à validade do trabalho como atividade inerente ao homem.

Primitivamente, o trabalho apresentava-se como necessidade à sobrevivência e seu fruto era repartido coletivamente. O trabalho visto como atividade de mérito e remuneração individual, suprimindo qualquer ideário de comunidade e articulação social é criada recente. O trabalho passou de necessidade imposta para sobrevivência natural a necessidade imposta para sobrevivência social. Com a detenção dos meios de produção por um única classe – não interessada em qualquer idéia de coletividade primitiva – o trabalho tornou-se a única “propriedade” do proletariado, sua mercadoria para a nova sociedade de classes; sua arma de sobrevivência.

Mas a aceitação do trabalho como atividade digna, não foi imediata- principalmente na sociedade brasileira, onde quem trabalhava (escravos) estava no último degrau da classificação social, e a elite era composta justamente pelos adeptos do ócio (os grandes proprietários).

A visão negativa do trabalho, típica da sociedade brasileira pré- republicana, é um claro exemplo da influência estrutural e ideológica na formação de um conceito definido de trabalho ( como algo degradante ou dignificante). Portanto, até mesmo a visão atual de trabalho como necessidade na formação moral do ser humano nada mais é do que uma adaptação ideológica a determinada estrutura econômica e social que tem no trabalho e na produção de excedentes sua base de sustentação.

Nesse contexto, o trabalho para produção de excedentes se tornou a única opção para inserção social. Dessa forma, o trabalho dignifica o homem, sim, não por sua essência bruta, mas por ser condição obrigatória à não marginalização. Trabalhar é manter-se vivo. Os desempregados – exército de reserva ameaçador – servem como força externa para coerção do indivíduo a trabalhar cada vez mais, produzir o que não consome, receber cada vez menos, sujeitar-se ao “sistema”.

E o homem, ex-sujeito da história, tornou-se objeto do sistema. A tecnologia, as máquinas e robôs seriam nossa salvação, enfim a liberdade do homem em relação ao trabalho. Ilusão. Tornaram-se apenas novas formas de coerção, instrumentos mais eficazes para mastigar a dignidade e reproduzir a miséria humana. Talvez o movimento ludista estivesse certo: a máquina é inimiga do homem; a máquina, expressão máxima do desenvolvimento técnico humano, potencializa a ambição, geradora da miséria humana.

O resultado da assimilação da tecnologia  aos meios de produção ilustra a relação atual do homem com o trabalho. Ao invés de utilizar-se da técnica para libertar-se da obrigação do trabalho, o homem utilizou-a para implementar a produção. O trabalho tornou-se obrigatório e instrumento de opressão e distinção social. O homem não mais trabalha  para si, tornou-se escravo do trabalho, num ciclo de imposições sociais que mantém os trabalhadores, como gado, submissos à vontade do patrão. E esse, por sua vez, é uma marionete do sistema, do mercado, do monstro que o homem impôs a si mesmo: a ambição – a mesma que conduziu o conceito de trabalho de atividade dignificante para relação obrigatória e degradante.

Carolina Cavalcanti de Oliveira

2010 - Oficina Literária Puntel. Todos os direitos reservados.
Digitale | agência digital