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Na Antiguidade Clássica Grega, o Trabalho físico (manual) era atividade para os escravos, pois, para os helenos o verdadeiro trabalho era o trabalho intelectual que realizavam nas Eclésias, nos debates e oratórias, nos quais cuidavam das coisas referentes à vida pública.

Igualmente, na civilização romana, assentada em bases escravistas, quem trabalhava eram os prisioneiros de guerra, homens endividados e pobres em geral. Para ambos os povos, o ocium era virtude e enaltecia o indivíduo; já o negocium (trabalho) era algo para os desfavorecidos da sorte. Por outro lado, as artes clássicas que chegam até nosos dias (teatro, poesia, literatura) e as atividades esportivas (como as Olimpiadas) atestam a impotância do lazer e da diversão para os indivíduos considerados cidadãos naquelas sociedades. Estes cidadãos, a minoria da população, beneficiavam-se dos frutos do trabalho compulsório realizado pelos escravos.

Milênios se passaram, e vemos uma inversão nesses valores no que tange à relação trabalho-lazer na atualidade. Hoje, na moderna sociedade urbano-industial, sustentada por uma moral burguesa, há uma claríssima apologia ao trabalho. Até nas fábulas infantis há a reprodução da ideologia de que o trabalho honesto “dignifica o homem”. Porém, a ideologia de edificação moral, econômica e / ou social através da vida laboriosa já foi utilizada de forma díspar na história da humanidade.

Para os monges franciscanos e beneditinos da Idade Média, o trabalho (juntamente com a oração e a caridade) constituía-se em ferramenta indispensável à elevação espiritual. Aqueles religiosos só acreditavam ser lícito comer o que era cultivado por suas próprias mãos. Inversamente, a idéia de libertação através do  trabalho foi utilizada pelos nazistas alemães de forma macraba. Estes, perseguindo os ideais de pureza racial, prenderam milhões de pessoas (judeus, ciganos e eslavos) em campos de trabalho forçados, concentração e extermínio, causando verdadeiro horror às sociedades “civilizadas” modernas e deixando uma marca indelével de crueldade e selvageria na história do mundo.

Pode parecer-nos cruel e bizarro o modo como os antigos gregos e romanos e, modernamente, os europeus colonizadores e nazistas do 3º Reich escravizaram, seus, semelhantes. Porém, não nos parece ser muito melhor a situação do trabalho no mundo atual, uma vez que o sistema capitalista de produção também faz de cada trabalhador um escravo em potencial. Escravo do tempo, do dinheiro e do ritmo alucinante ditado pelas máquinas. Escravos da ideologia burguesa, que faz de nós “formigas supercompulsivas”, trabalhando de forma insana para enriquecer; coisa que a maioria nunca conseguirá nos quadros de sistema capitalista, pois este é forjado justamente sobre a pobreza, a exploração e o aviltamento do homem pelo homem. A exploração é a mesma: ontem e hoje. A diferença é que ontem era declarada e às claras; hoje, é mascaradas e sutil, ideologicamente estruturada.

Muitos trabalhadores sequer conseguem o mínimo necessário para sobreviver. Sofrem, além disso, diariamente agressões, coerções e muitos chegam a ser até agredidos fisicamente por patrões e / ou encarregados.

Mas a questão é complexa e esconde muitas especificidades. Por exemplo, um operário do primeiro mundo recebe melhor salário e tratamento que outro do terceiro mundo, onde as relações tendem a ser ainda mais aviltantes em decorrência da abundância de mão-de-obra frente ao baixo número de postos de serviços. Da mesma forma, a tecnologia serve para a degradação do trabalhador, quando produz instrumentos e aparelhos cada vez mais sofisticados e que levam o homem a trabalhar cada vez mais.

A meu ver o paradoxo colocado pelo mundo do trabalho é : este deixou de ser algo dignificante e cada vez mais serve à lógica da acumulação, do lucro e das produções excedentes. Deveríamos, pois, rever o próprio conceito de evolução das sociedades humanas e de civilização. Porque alardeia-se que vivemos no ápice do desenvolvimento humano e que a vida em sociedade nunca foi melhor. Discordo. Acredito que muitas sociedades primitivas (tidas como atrasadas e bárbaras pelos ocidentais) , no que diz respeito à qualidade de vida, estariam anos-luz à nossa frente. Sim, porque nessas sociedades não capitalistas e sem a lógica nefasta de acumulação que rege a nossa sociedade atual, havia um equilíbrio entre o tempo de trabalho, descanso e lazer, haja vista que eles trabalhavam as horas necessárias para adquirir o alimento que lhes garantiria o sustento. Hoje, não há equilibrio. Aliás, equilíbrio e justiça não são exatamente características do mundo capitalista atual. Ponto para os indígenas brasileiros, astecas, maias e incas em matéria de esperteza e evolução: eles trabalhavam para viver, e não viviam para trabalhar como os homens de hoje! Será que evoluímos???

Gisele Aparecida de Souza

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