Oficina Literária Puntel


Unicamp
TRABALHO POR NECESSIDADE X TRABALHO POR ORGULHO

O trabalho apresenta um caráter vital: através dele se produzem os gêneros alimentícios, as construções, os utensílios e grande parte das relações sociais. Assim, a forma como ele se estrutura reflete a evolução e a organização de cada época e localidade. Ao longo do tempo, os inúmeros pensadores, ensaístas e personalidades observaram-no e formularam diferentes concepções do trabalho, sob enquadramentos distintos. Algumas dessas visões consideravam-no como fator de promoção, enquanto outras, como uma atividade degradante. A razão dessa discrepância é o fato de que, historicamente, as relações trabalhistas sempre foram necessárias à humanidade como um todo, mas acabaram por privilegiar certos grupos.

Para as classes detentoras dos meios de produção (como os patrícios na Roma Antiga, os  senhores feudais na Idade Média, os burgueses nas idades Moderna e Contemporânea) o trabalho árduo, braçal, era aviltante. Estes grupos louvavam as atividades administrativas e a renda decorrente, na medida em que podiam contratar outras pessoas para realizar a produção agrícola ou industrial. Dessa forma, houve diversos grupos que sempre dependeram da venda ( ou do uso forçado) de sua força: escravos, servos, proletários, aos quais quase nunca coube a escolha das condições de labuta ou mesmo a opções entre esta e o ócio. Sem o trabalho, não teriam alimentos e os outros víveres.

As teorias sobre o trabalho visaram agradar essas distintas posturas. Exemplo disto é a doutrina calvinista, que no contexto da Reforma Protestante do século XVI trouxe o conceito de “salvação não só pela fé, mas também como fruto do trabalho”. Outrora tolhidos pela condenação ao lucro da Igreja Católica, os burgueses se apoiaram nessas idéias para se expandirem livremente. O resultado disso traduz-se na expansão e propagação do modo capitalista de produção, que consolidou no século XX a sua hegemonia.

A outra classe, o proletariado, também teve idéias que buscaram a sua promoção. O socialismo surgiu da observação das condições subumanas a que os trabalhadores estavam submetidos: jornadas excessivas, insalubridade, exploração do trabalho feminino e infantil baixo. Karl Max condenou não o trabalho, mas a “mais-valia” – apropriação excessiva dos lucros pelos patrões – e conclamou operários à união e contestação. Muitas associações e sindicatos  buscaram a regulamentação dos empregos, em tentativas de diálogo com os industriais, e certos benefícios foram sendo concedidos ao longo do século XX, nos países do globo: salários mínimos, horários pré-estabelecidos, auxílio-família, planos de saúde.

No entanto, a globalização – atual expressão do capitalismo – e suas características têm levado à redução desses privilégios. As empresas não têm mais fronteiras para sua expansão: instalam-se em países subdesenvolvidos, que oferecem mão-de-obra mais barata e legislações menos rígidas, uma vez que precisam se industrializar a todo custo. Jornadas excessivas são enfrentadas mesmo com riscos (desgaste físico e emocional), visando a um aumento no ordenado. Crianças são empregadas devido à necessidade de incrementar a renda da família – a elas, a educação nem chega a ser uma opção, quanto mais o ócio, as brincadeiras da infância.

Se alguns grupos de empresários se vangloriam por serem workabolies – viciados em trabalho – ou por exercerem o “ócio criativo”, e terem o trabalho como uma parte agradável de seu cotidiano, a maioria de seus empregados desconhece tais expressões: as atividades econômicas lhes têm um caráter de obrigação. Não se pode negar que, em geral, o trabalho leva ao crescimento da sociedade, do país, da humanidade. Todavia, para certos grupos, ele tem sido extremamente promotor do desenvolvimento, ao passo que, para uma grande maioria, provoca diariamente uma degradação do indivíduo, o qual busca alcançar alguma ascensão ou, simplesmente, a sua sobrevivência ( o que é altamente humilhante).

Beatriz Helena C. S. da Silva

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