O capitalismo transformou, ao longo dos séculos, o homem num ser extremamente vil e egoista. Todas as atitudes, todas as relações, todos os pensamentos e até os sentimentos passaram, sob o domínio capitalista, a obedecer à “ditadura monetária”. Em nome da constituição, ou do aumento de sua riqueza, o ser humano passou a esquecer o amor recíproco ao seu semelhante e aderiu piamente ao maquiavélico “os fins justificam os meios”.
Nos primórdios da história não havia para o homem a ganância pelo acúmulo, por possuir mais do que seu companheiro, até porque tal acúmulo não significaria então superioridade. A produção era baseada na sobrevivência, e nos instrumentos para tal. Assemelhávamo-nos a qualquer animal, e nosso diferencial em relação a estes, o raciocínio, provocava um avanço tecnológico, não pelo aumento da produção, mas por sua facilitação.
No capitalismo, a situação se inverteu. Predomina o conceito de “posse”, da superioridade em função da riqueza. A ascensão burguesa na Idade Média disseminou o “ter sobre o ser” e estimulou o individualismo egoísta que faz um idealizar seu sucesso no fracasso do outo. O que facilitou a tática burguesa de tomar para si os meios de produção como forma de controle social, pois só resta à população a “luta bestial e ferina” em busca da sobrevivência, impedindo-a de rebelar-se contra essa dominação.
Identifica-se também a dominação ideológica burguesa no capitalismo industrial. Aproveitando-se do moralismo religioso decorrente do medievo, a burguesia utilizou a repressão sexual como forma de dominar o proletariado. A “demonização” do exercício da sexualidade (não só do ato sexual) refletia uma visão negativa também do prazer e do lazer, endeusando o trabalho como dignificante e salvador.
Essa “lavagem cerebral”mostrou-se propícia aos interesses burgueses, uma vez que garantiria a manutenção do status quo favorável. Um operário exausto, com jornadas muitas vezes de 16 horas diárias, ou mais, não teria ânimo para rebelar-se, organizar greves ou manifestações.
O estímulo dessa mentalidade trabalhista caracterizou o acúmulo de capitais como “o sentido da vida”, e o trabalho incessante e exaustivo como forma de alcança-lo. A serviço dessa imposição, surgiram vários meios, desde a alienação infantil, com a popularização de fábulas como “A cigarra e a formiga”, até a nazista enganação do trabalho como forma de libertação.
A conseqüência disso, vemos em cenas como as da mineração em Carajás, com milhares de homens morrendo a cada dia pela esperança da “riqueza milagrosa”. O que reflete a visão do trabalho não bom por si só; pelo contrário, assim como na escravatura, algo desprezível é o trabalho braçal e forçado, só justificável pela esperança do enriquecimento, que possibilitaria ao oprimido passar a opressor.
Essa mesma visão percebe-se nos trabalhos voluntários, altamente desprezados por não apresentarem possibilidade concreta de recompensa. Por outro lado, com a justificativa religiosa, a adesão aumenta, não pela solidariedade, mas pela promessa do paraíso aos voluntários. Igualmente capitalista.
A situação só se alterará quando o homem se desprovir de sua ganância egocêntrica e deixar de explorar miseráveis, como as grandes multinacionais americanas, em nome do lucro exacerbado. Como sonhava Marx, só a preocupação social salvará nossa humanidade.