O homem contemporâneo encontra-se mais uma vez diante do aprisionamento gerado a partir de seus próprios esforços para a superação contínua, tanto dos limites que o tempo lhe impõe quanto da própria capacidade de criação humana, seja esta de caráter intelectual, artístico, ou de produção em série de um bem de consumo qualquer.
O exercício do trabalho destinado a nada além da subsistência, verificado nas sociedades primitivas onde predominava um sistema de consumismo real, praticamente inexiste. A divisão eqüitativa das tarefas a serem realizadas bem como dos produtos obtidos através das mesmas, não havendo o lucro fundamental ao capitalismo, aproxima-se do cotidiano e caos urbano como utopia ingênua e frágil, e, por que não, insuficiente para o ideário de consumo criado e mantido quase doutrinariamente pela mídia.
A possibilidade da produção criativa, até lúdica, comunitária e descompromissada através do trabalho dá lugar, diariamente, a uma soma absurda de pessoas que desempenham suas funções maquinalmente, excedendo seu tempo rentável enquanto as atividades mais simples e corriqueiras são também passadas para outro trabalhador especializado: a empregada doméstica dorme no ambiente de trabalho e o convívio familiar é sufocado por horas-extra ou pelo inevitável cansaço.
No ritmo em que caminha a sociedade atual, as contradições são gigantes: a produção aumenta a olhos vistos, mais capital é acumulado ou reinvestido em nome de uma possível utilização posterior ou mero legado para as gerações futuras, enquanto na mesma medida, o tempo de que se dispõe mostra-se cada vez mais escasso e passível apenas de ser aproveitado para maior produção e renda, e nunca para ócio, agora, não contraditoriamente, produtivo em si mesmo.
A cultura do dever quase moral do trabalho torna-se, então, força eletromotriz do sistema capitalista que privilegia uma minoria enquanto a esmagadora maioria é marginalizada. A energia dos inúmeros trabalhadores explorados constitui, por fim, a escala humana tão bem retratada por Sebastião Salgado, que levará cada vez mais alto a riqueza tão buscada pelos que já a possuem, ao menos no referido plano.
É exatamente deste regime de produção e comportamento que necessitam os motores propulsores da realidade do trabalho vivida pelo mundo, pois o tempo gasto justamente em tantos setores é subtraído sem dúvida do que haveria para maiores reflexões, inovações, contestações e mudanças no sistema vigente. O trabalho destituído de prazer, que para boa parte da população se tornou infelizmente regra, é mais um mecanismo de opressão e dominação, contando tantas vezes com a inconsciência acerca de demais motivos e proquês de sua existência, bem como com a legitimação a ele concedida por noções de obrigações, função e utilidade, participantes do código social.
Junto ao trabalho compulsório está o trabalho excessivo e estritamente necessário, na exploração cotidiana de famílias inteiras que somam as rendas de cada membro para tentarem atingir um mínimo à sobrevivência, quando sua jornada nas fábricas é máxima e muito mais do que precisariam para si mesmos se os termos de troca não fossem os verificados mundialmente.
Torna-se necessária, portanto, toda uma reavaliação de metas e prioridades, dessa vez partindo-se de quem faz a história com as próprias mãos, anonimanente, e não da minoria dominante. Para os que lucram com o trabalho que exclusivamente alheio, um sistema que caminha e se sustenta, que é origem e fim de suas expectativas, não deixa definitivamente nada a desejar.