Karl Max, importante filósofo alemão, defendia a tese de que produzimos nossos princípios a partir de nossos velhos princípios. Ou seja, o homem, ao desenvolver sua cultura, retoma traços de tradição herdada anteriormente. Dessa forma, a criação de novos parâmetros se dá através da atividade física e intelectual do indivíduo, isto é, por via de seu trabalho. Este gera, portanto, favorecimento ao mesmo, pois garante que nossa espécie evolua tanto no campo material como no espiritual, já que incrementa a visão que o ser humano tem do mundo que o cerca. Apesar de todo este benefício, o trabalho também tem a capacidade de reduzir a maioria das pessoas a uma mera engrenagem social na medida em que esta atividade pode ser adaptada aos intesses daqueles que controlam os meios de produção.
Primeiramente, devemos lembrar que, desde os primórdios da civilização, o trabalho está presente na vida do homem. Este, a fim de garantir sua sobrevivência e inserção num grupo social, utiliza-se da sua capacidade para realizar tarefas, contribuindo, assim, para a evolução da humanidade. Além disso, vale ressaltar que a cultura é fruto do trabalho humano. Aliás, Nietzche já dizia que quando o homem fala quem fala é a cultura. Ou seja, a tradição herdada do esforço físico e racional do indivíduo é que define seus descendentes como sendo parte integrante de uma sociedade dentro da qual os mesmos necessitam viver para dar continuidade a todo este ciclo crescente. Desta forma, o trabalho se torna algo relevante para nós pois através dele vemos refletida nossa identidade como ser humano.
Ao longo da história percebemos que o grau de prioridade dado ao esforço individual sofre oscilações, indo desde a valorização até o total repudiamento de tal atividade. Na Idade Média, por exemplo, este era visto como algo inferior destinado àqueles ocupantes da base da pirâmide social. A aristocracia viva no luxo e o ócio significava superioridade em relação aos camponeses servis. Esta situação se inverteu na Idade Moderna com a ascendência ao poder de uma classe de camponeses que se enriquecia com o comércio. A riqueza passa, desta maneira, a ser dada pelo dinheiro e não mais pela terra, o que valorizou a obtenção do primeiro através do trabalho.
Além de uma mudança econômica, tivemos ainda uma transformação cultural, visto que a Igreja Católica, grande formadora do imaginário popular, ao condenar a atividade humana, ia contra os interesses da burguesia, o que abriu caminho para instituição da Reforma Protestante na Europa. A religião e a economia acabaram, pois, moldando o ideal capitalista que nascia nesta época. Esta correspondência é defendida por Max Weber em sua obra A ética protestante e o espírito capitalista, já que nos dá uma visão cultural acerca das alterações ocorridas nas relações entre trabalho e poder.
Apesar dos aspectos positivos que o trabalho trouxe à nossa vida, percebemos que é a partir da instituição da ideologia capitalista que a exploração através do mesmo se intensifica bem como a degradação espiritual do homem na medida em que este se confunde com aquilo que produz. Marx faz uma análise laboriosa deste processo, salientando que a burguesia, ao possuir os meios de produção, destrói a relação que o operariado tem com o objeto que cria, fazendo com que este produza algo que pertencerá a outro, restando ao mesmo vender apenas sua mão-de-obra. Estabelece-se, desta forma, a alienação pelo trabalho, que transforma os assalariados em verdadeiro fontes de mais-valia para a classe dominante.
A alienação é o primeiro passo para o processo de superação humana, ou seja, a metamorfose do homem em uma engrenagem da máquina produtiva. O trabalho, neste estágio, não é feito mais de forma individual e assim em série, na qual uma massa de operários é programada para tirar o máximo da matéria-prima, num menor intervalo de tempo, e com menor gasto possível. A coisificação do ser humano acaba sendo a fonte de suas infelicidades e angústia, pois massifica-o sem proporcionar que a maioria deles tenha consciência disso. A revolta acaba nascendo, portanto, não das causas desse mal mas sim das conseqüências, o que garante a perpetuação deste estado.
As ponderações feitas por Marx invalidam, portanto, o argumento de que o trabalho liberta. Na verdade, nem todo trabalho liberta, pois quando este é inserido dentro daquele mecanismo, ele acaba por escravizar os homens e não fazer com que estes se sintam satisfeitos com aquilo que criaram. Além disso, esta mesma frase num campo de concentração, materializa o paradoxo contido nela, uma vez que os aprisionados são obrigados a produzir contra sua vontade e, além de tudo, não são nem remunerados por isso, servindo, pois apenas para dar lucros ao Estado Nazista.
Podemos inferir, diante de todos estes aspectos, que o trabalho pode ser tanto fator de promoção, visto que espelha uma característica essencialmente humana que é a capacidade de transmitir seu legado cultural a gerações posteriores, como um fator de degradação das relações entre os homens, já que permite a exploração da maioria pela minoria perpetuando, desse modo, a dominação, as injustiças sociais e a transformação do criador na sua própria criatura.