Ao contrário do que muitos pensam, o trabalho, se tivesse que ser classificado como “bom” ou “ruim” para a humanidade, apresentaria a mesma característica de todas as demais estruturas, sistemas e fenômenos: não é, em si, um fator de promoção nem de degradação do homem, mas um ferramenta que pode ser utilizada para diversos objetivos.
Desde os primórdios da civilização, o trabalho foi encarado de diversas formas. Como atividade sem valor social, exclusiva dos escravos na Antiguidade Clássica, permitiu o desenvolvimento intelectual dos cidadãos gregos, sobretudo no campo filosóficos, o que lhes deu ferramentas ideológicas para manter seus escravos em sua situação, enquanto tais intelectuais, no ócio laborial completo, desfrutavam do trabalho alheio. Como atividade que “dignifica o homem, o trabalho tornou-se ainda mais explorador, principalmente a partir da revolução Industrial, quando as ideologias das virtuosidade do labor foram impostas sutilmente pela burguesia à classe operária, fazendo esta sustentar aquela, com um respaldo socioideológico ainda mais “elaborado” – mais alienador e sutil – que o da Antiguidade.
Impondo de forma psicodominadora, através de sistemas pseudomoralistas, o trabalho além do indispensável para a sobrevivência, a burguesia criou uma estrutura exploradora e massificadora com elevada eficiência: a mais-valia. Trabalhando mais que o socialmente necessário, as criaturas não burguesas da espécie Homo sapiens acabam gerando um excedente, espoliado pelos burgueses e denominado mais-valia. Esta, inerente ao capitalismo, é um acinte a toda humanidade, não passando de um mecanismo expropriador do resultado do trabalho alheio, e que garante a hegemonia de uma classe (burguesia) sobre outra (proletariado).
Colocando como vagabundos aqueles que se recusam a ser devorados pelo trabalho cujas riquezas produzidas, em sua maior parte, não ficam com o trabalhador, a antropofágica classe burguesa classifica como rústico, selvagens, bárbaros e “atrasados” aqueles que tentam se dedicar exclusivamente à subsistência. Tal ideologia é imposta veladamente à classe operária, iludindo esta última, afirmando que o trabalho implica na riqueza, levando os trabalhadores, alienados, a trabalhar, juntamente com sua prole, até esgotarem suas forças, visando à riqueza ou ao “reino de Deus”. Mais maquiavélica ainda, a burguesia oculta o fato de que, no capitalismo, como é o trabalho espoliado que sustenta tal classe dominante, a classe operária, em si, jamais atingirá um padrão de vida digna, tornando a miséria inerente ao sistema.
Para provar o caráter inescrupuloso de tal classe dominante, podem-se citar os regimes fascistas que, demagogicamente afirmando-se ultranacionalistas, defendiam os interesses burgueses, já que o Estado em si é uma entidade burguesa. “Arbeit macht frei” realmente, dir-se-ia por ironia, haja vista que quando a capacidade humana do indivíduo esgota-se de tanto trabalhar e ele fenece, realmente liberta-se da exploração – espoliação de seu trabalho pela burguesia.
Tal “escravidão ideológica” perdura até hoje, em alguns casos culminado na “semi-escravidão material”, como é o caso do trabalho aviltante e desumano na transnacionais em países como Indonésia, Vietnã, Coréia, Taiwan, entre outros.
Sendo assim, o trabalho, no sistema capitalista, danifica muitos Homo sapiens para o bem-estar de outros; promove o desenvolvimento humano unicamente da burguesia; ilude o trabalhador com o dinheiro de sua hora-extra – que tira o emprego de outros e contribui para o empobrecimento da classe como um todo -; aliena a população, como no conto de La Fonteine, “ A formiga e a cigarra”, que leva ao conformismo do povo com seu trabalho árduo.
Enfim, o trabalho não passa de mais uma ferramenta que o homem da classe dominante resolveu utilizar em benefício próprio, em detrimento do restante da humanidade.