O homem necessita, por natureza, viver
O filme “Terra de ninguém”, de Danis Tanovic, trabalha as fronteiras entre a subjetividade e a “consciência imposta”, identidade e supressão do eu. Dois soldados inimigos feridos, e um terceiro jazendo sobre uma mina terrestre ativada, capaz de matar os três a qualquer momento. Tal situação força o sérvio, Nino, e o bósnio, Tiki, a alternarem relações de parceria e hostilidade, a fim de salvarem as próprias vidas e, no caso de Tiki, também a seu amigo deitado sobre a mina.
Ironicamente, os dois inimigos, apesar de serem de etnias e culturas diferentes, conviveram durante anos na mesma região, falavam o mesmo idioma e, até chegaram a namorar uma mesma mulher. Tal fato aproximava-os, ao ponto que, retirado o ódio cultivado e imposto por suas comunidades e etnias, contras as outras, poderiam até serem amigos.
Entretanto, a guerra entre bósnios e sérvios e suas cruéis consequências para ambos os lados, suprime a subjetividade de cada um, que passa a ser soldado, objeto armado e treinado para matar o inimigo. Adota-se a consciência imposta pelos líderes de cada etnia, em detrimento do outro que, por ser de outra etnia, é o inimigo a ser eliminado.
Devido ao ódio e à supressão do eu, submetendo-se às circunstâncias, vizinhos, ao invés de se completarem e criar uma comunidade harmônica, matam-se friamente, sob a influência do “inferno dos outros”.