O leitor e a leitora que me leem, sabem que, até recentemente, havia duas modalidades de crueldade praticadas pelos jovens universitários em suas insanas baladas noturnas. A primeira era chutar prostitutas na madruga. Lembram disso? O caso mais estarrecedor, embora não seja o único, se deu na Barra, no Rio. Jovens de poder aquisitivo acima da média, desses criados com leite de caixinha, deambulando o sem-fazer que as madrugas propõem, viram uma pobre coitada no ponto de ônibus e foram pra cima dela com murros e pontapés. Lembram-se? Presos, o pai de um deles soltou a pérola que correu mundo: “Ah, mas era só uma puta!” Como se puta não fosse gente, fosse a versão moderna do mané-gostoso, o escravinho saco-de-pancadas do sinhozinho, figura escravocrata tão bem lembrada recentemente pelo jornalista Chiavenato em sua coluna – alô, Barão Von Julius!
A outra modalidade, os leitores também se lembram, é o melativo esporte de jogar ovos em incautos transeuntes. A dinâmica deste esporte é muito simples também: a moçada passa num supermercado, compra dúzias de ovos e vão para o apartamento de um deles. Entre doses do mais legítimo scotch, miram os passantes e disparam certeiras ovadas nos pobres coitados. Eu me lembro que a grande imprensa enumeroua socialites e jovens bem-nascidos no rol dos “ovantes”: o filho do Bony da Rede Globo, o neto do Brizola, a Narcisa Tamborindeguy e a neta do Tom Jobim. É só colocar “Boninho ovos” no Google, para conferir. Talvez você não consiga ver o vídeo-depoimento do enfant terrible, diretor do BBB, porque trataram de tirá-lo do ar. Mas as notícias estão lá pra quem quiser levar “ovada”, kiá kiá kiá...
Pois não é que criaram mais uma modalidade, esta super-hiper-mega-plus interessante também? É a tapetada! Também de dinâmica muito simples, muito fácil de ser executada. Não requer prática, muito menos experiência! Só um pouco de mira no alvo a ser acertado. Depois de turbinados por doses de sabe-se-lá-o-quê, jovens saem pelas ruas na madruga à procura de um alvo humano. O carona enrola o tapete do carro, coisa bem mais barata e simples do que a ovada, concordam? Com o tapete, ele faz uma espécie de cacetete. Em seguida, coloca meio corpo para fora do carro e, quando o carro emparelha com a vítima, zás-trás, pespega-lhe forte tapetada no cocoruto. A vítima – scataplofiti! – vai ao chão e os jovens universitários comemoram desbragadamente o ato insano.
Veiculada na novela “Caminho das Índias”, a tapetada tem dezenas de comunidades no Youtube. É só conferir os absurdos que os jovens declaram ter feito com pobres transeuntes. Foi o que aconteceu com o seu Geraldo Garcia, funcionário do COC – evento noticiado por este jornal e pela grande imprensa do país. O mais grave é que seu Geraldo não apenas foi o escolhido para levar a tapetada no lombo, caindo – scataplofiti! – da sua bicicleta, mas ainda recebeu dos sinhozinhos universitários o ferro de marcar escravos de antigamente, atualizado na expressão “ei, negro!” desferida pelo agressor e referendada pelos amigos com sonora gargalhada de satisfação.
Presos pelo delegado, foram soltos pelo juiz, que desqualificou o crime de racismo para injúria, o que fez com que os jovens sinhozinhos universitários ganhassem as ruas em pouco tempo. Não se discute aqui, evidentemente, o despacho do meritíssimo. Despacho judicial é pra ser cumprido, não interpretado, todos sabemos. O que se discute aqui é que a sociedade dos brancos ainda veem os negros geraldos como o escravizado mané-gostoso, também chamado de “leva-pancada” dos tempos da escravidão.
Justos foram os desagravos feitos ao seu Geraldo Garcia pelo Centro Cultural Orunmilá – salve, pai Paulo! Salve, mãe Neide! -, pelos sindicatos, partidos políticos e todas as entidades que repudiam atos nazistas iguais a estes.
Seu Geraldo, em nome de todos nós, os brancos cidadãos, envio um abraço apertado ao senhor.
Luiz Puntel, professor de Literatura, lê novamente a passagem do Brás Cubas metendo o reio no Prudêncio, seu mane-gostoso. Salve, Machadão!