Oficina Literária Puntel
20.01.2010
TO BE OR NOT TO BE? EIS O TEMA DA FUVEST 2010!
Crônica publicada no jornal A Cidade

            O que a Corrida das Velas, o Collor-não-me-deixem-só-minha-gente, o Lula-sem-medo-de-ser-feliz, o Harry Potter e a Caverna de Platão têm em comum com o tema da Fuvest deste ano? Nada? Calma, leitores! Usemos o método de Jack, o Estripador, e vamos por partes, ok?
            Primeira parte: desde a Idade Média, acontece, em Gubbio, na Itália, a Corrida das Velas. Três equipes carregam, correndo – ufa, dufa! -, as imensas imagens de Santo Ubaldo, São Jorge e Santo Antônio até o alto dos 900 metros do Monte Ingino, aquele mesmo onde se faz a maior árvore de Natal do mundo, estão lembrados? Quem sempre ganha a corrida, há 900 anos, é a equipe de Santo Ubaldo, lógico, já que dono da casa, tenderam? O livro “A Conspiração Franciscana”, de John Sack, tem a resposta. O frade Conrad, às páginas 86, se vocês me fizerem o favor de conferir, - diz à jovem Amata que o ritual da tal corrida só existia para intensificar a devoção dos camponeses. Como eram analfabetos, precisavam de uma imagem ou de um espetáculo que os unisse. O grifo é deste articulista, mas as palavras são do frade franciscano, ou seja, o que importa é a simbologia da corrida, não a corrida propriamente dita. (digitem “corsa dei ceri” no google, e boa corrida, rapazes!)
            Invoquemos novamente Jack, o Estripador, para explicar a parte da dobradinha Collor/Lula, que, por sinal, andam amicíssimos, vocês viram na TV? Quem votou no Collor, votou no desconhecido prefeito de Maceió, ou no caçador de marajás, no guardião da moralidade? E quem votou no Lula, votou no inflexível sindicalista dos irretocáveis discursos do estádio da Vila Euclides, de 1979, ou no palatável discurso ameno que interessava à direita? Lógico que votaram na imagem, na simbologia que a campanha publicitária fez dos até então antagônicos candidatos. E digo “até então antagônicos” porque o Collor tem até comparado – ai, Jesuscristinho! - a Dilma à Margareth Thatcher. Pode? E a justificativa do Lula afirmando que o Lulinha tem se dado bem nos negócios porque, assim como o Ronaldinho, ele tem vocação para fazer negócio? Não é de doer, gente?
            E o sucesso de Harry Potter, o que tem a ver com isso? Ora, ora, por que se fazem filas e filas quilométricas para o lançamento das narrativas do jovem bruxo? Não é porque temos mais leitores, mas sim porque são leitores catapultados pela indústria cultural, certo? Os leitores compram a imagem que lhes venderam do jovem bruxo, a simbologia que criaram em torno do texto, não o texto propriamente dito.
            E a Caverna de Platão? – alô, alô, Marilena Chauí! - Pensam que esqueci dela? Nananina! Ela explica tudo. Na caverna, segundo o filósofo grego, virados eternamente para a parede, os viventes não veem a realidade, mas a sua representação, a sua simbologia, o parecer ser, e não o ser. Eles olham sombras e acreditam piamente que veem a verdade, já que nunca viram a fogueira no meio da caverna, porque estão estáticos ali, como estátuas eternas, sem poder virar o rosto.
            Entenderam porque isso tudo tem a ver com o tema de Redação da Fuvest deste ano? A banca exigiu que os candidatos escrevessem sobre a representação imagética. Deram um fragmento de texto do antropólogo francês Gilbert Durand. – Salve, salve, meu simpático e querido professor Ubiratan D´Ambrósio! Quer dizer que o senhor é “assim, assim” com ele, hein, mestre? E também um fragmento de texto de Tânia Pellegrini. Nele, a professora da UFScar afirma justamente isso, que não nos relacionamos diretamente com a realidade, mas com a sua representação, com o seu simulacro.
            É o mesmo questionamento que a FGV Direito fez agora, em 2010, com o tema Verdade e Poder. Acessem http://www.fgv.br/vestibulares/sp_dir/2010/Provas/10_GV_redacao.pdf e confiram! É o mesmo questionamento que a própria Fuvest fez em 1988, com o famoso tema do cachimbo do Magritte: a realidade existe mesmo ou é pura ilusão? E também em 2008, quando pediram vigilância epistêmica, ou seja, precisamos ter desconfiômetro ligado sobre o que vemos e lemos. Portanto, não confiem nem mesmo neste artigo, leitores, pois vocês podem, não estar sendo filmados, mas estar sendo enganados... kiá kiá kiá...
            Parabéns à Fuvest pelo filosófico questionar de sempre. Alô, Maria Teresa Fraga Rocco! Um beijo aí pra banca, valeu?
 
 
Luiz Puntel anda lendo Shakespeare e, como Hamlet, declamando: “Ser ou não Ser, eis o tema.”
Texto: Luiz Puntel

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