Oficina Literária Puntel
01.02.2009
REVIDE ENTREVISTA PROFESSOR PUNTEL


REVISTA REVIDE

O SABOR DO SABER  

30/01/2009 em 18:00
 
O professor e escritor Luiz Puntel defende que para formar cidadãos mais críticos é necessário começar pelo incentivo à leitura e à educação multidisciplinar



A relação do professor e escritor Luiz Puntel com o saber começou cedo. Mesmo sendo natural de Guaxupé, Minas Gerais, e tendo passado por diversas cidades ainda criança, foi em Ribeirão Preto que o futuro criador da Oficina Literária Puntel começou a ser alfabetizado. “Sou do tempo em que a melhor educação era oferecida pela rede pública. Quando passei no teste para iniciar o ‘grupo’ no Otoniel Mota, uma das escolas mais tradicionais da cidade, houve festa em casa”, recorda Puntel.

Foi também em Ribeirão Preto que o escritor de “Açúcar Amargo” graduou-se em Letras nos anos 70. As aulas no Centro Universitário Barão de Mauá eram conciliadas com a carga horária de trabalho no Banco do Brasil, onde Puntel foi bancário por muitos anos, enquanto tomava forma o desejo de ser professor. Mesmo depois de concluir o curso superior, as salas de aula continuaram a fazer parte do dia a dia do escritor, que passou a dividir seu tempo entre o trabalho no banco e as aulas substitutivas que era convidado a lecionar. “Sempre atuei como professor de literatura, redação e português. Esse início como professor substituto foi fundamental para que eu me tornasse o professor que sou hoje. Naquele período, tive a oportunidade de lecionar para os mais diversos tipos de alunos”, relata Puntel.

Ao mesmo tempo em que dava aulas no colégio onde havia estudado, também passava temporadas em escolas localizadas nas periferias da cidade e ainda tinha a oportunidade de atuar em instituições particulares de ensino, o que aumentou rapidamente a rede de relacionamentos no meio acadêmico. Alunos de alfabetização de turmas adulto e infantil, estudantes do pré-vestibular, jovens da periferia e portadores de deficiência mental foram alguns dos públicos para os quais lecionou.

Só mais tarde, quando já fazia parte do corpo docente do COC, dando aulas para estudantes do cursinho, é que Puntel decidiu que seria, definitiva e exclusivamente, professor. “Antigamente, ninguém pedia demissão de um cargo no Banco do Brasil. Esse era um dos empregos mais seguros e desejados pelos brasileiros. Por isso, foi complicado tomar a decisão de maneira irreversível”, argumenta, contando que os anos como bancário o ensinaram a ter ainda mais disciplina, respeito e responsabilidade.

No entanto, Puntel não estava satisfeito com as aulas de redação expositivas que costumava oferecer aos alunos dos cursos pré-vestibular. Por causa disso surgiu, aos poucos, sua Oficina Literária. Da sala de casa, Puntel passou para uma sede própria que se tornou referência em Ribeirão Preto. “Com o tempo, obtivemos o retorno dos alunos que fizeram faculdade e voltaram para testemunhar que meu trabalho era sério e eficaz”, afirma com orgulho. Já são mais de 20 anos de dedicação à educação, sem deixar de lado a paixão pela escrita e a produção literária, história que também começou cedo na vida do professor. Produção literária

Desde a infância, a leitura sempre esteve presente na vida de Puntel. “Lembro que morávamos na rua São José e íamos muito à Biblioteca Altino Arantes”, conta. Com talento para a escrita, o jovem Puntel sempre teve um excelente desempenho escolar na área de idiomas. “Quando chegou a hora de escolher entre o clássico e o científico, como era dividido o colegial antigamente, optei pelo clássico, voltado às disciplinas de humanas, com aulas de grego, latim, literatura, história, etc”, relembra Puntel.

No entanto, confessa que também gostaria de ter aprendido um pouco mais de química, física e outras disciplinas que explicassem os fenômenos da natureza. Quando ainda era bancário, o professor escrevia crônicas e reportagens para jornais da cidade, textos que comporiam mais tarde seu primeiro livro, “Não Agüento mais esse Regime”. “Depois de enviar o material para uma série de editoras, fui procurado pela Editora Ática, que publicou o livro dentro de uma série chamada Autores Brasileiros. Com essa, vieram outras oportunidades de publicação”, afirma. Hoje, o professor possui 10 livros publicados, muitos deles direcionados ao público infanto-juvenil como os integrantes da série Vaga-Lume, da Editora Ática, como “Meninos sem Pátria”, “Deus me Livre” e “Açúcar Amargo”, o último, um grande sucesso cujo contexto está bem próximo à região de Ribeirão Preto.

Temas contundentes também estão presentes nos livros do autor. Escrever para jovens foi uma consequência natural. “Trabalho diretamente com esse público. Portanto, conheço a linguagem certa para me comunicar com eles. Pensando mercadologicamente, isso é fundamental para tornar o livro um produto comercial vendável”, observa. Mesmo fazendo sucesso no segmento, Puntel chama a atenção para o baixo índice de leitores entre os brasileiros. “Incentivar a leitura também é determinante para se criar uma sociedade melhor”, defende o professor, sem medo de afirmar que nem mesmo a escola estimula adequadamente esse hábito entre os alunos.

Ao lado da professora Fátima Chaguri, Puntel teve a oportunidade de publicar seu primeiro livro didático. Direcionado a alunos de primeira a quarta séries, as publicações foram fonte de aprendizado para o professor e resultaram numa parceria gratificante. “Fizemos um trabalho muito rico, aprendemos muito sobre produção editorial e a função da escrita”, afirma. Na opinião do professor, a principal dificuldade em escrever um bom livro didático está em sua abrangência. “É preciso estar atento ao fato de que o Brasil é um país de dimensões continentais, com diversos regionalismos. Cada texto e capítulo produzidos precisam ter uma razão de ser”, explica Puntel. Essa idéia vai ao encontro dos princípios defendidos por Paulo Freire. “A escola que está na periferia e não leva em conta a expressão cultural da comunidade é uma escola que está apenas invadindo o bairro. Se a linguagem que os alunos conhecem é a do rap, é preciso trazer o rap para a aula de português, por exemplo. Se isso não acontecer, haverá um choque cultural entre alunos e professores”, opina. Diferente do que seria o ideal, os estudantes brasileiros não vão à escola, entre outras razões, pelo prazer do conhecimento. “Eles não conhecem o sabor do saber, palavras que, inclusive, possuem a mesma raiz”, chama a atenção. Apesar da complexidade do tema, trabalhar a educação nas escolas de maneira mais integrada, onde as disciplinas possam interagir, é uma alternativa para tornar a aquisição do conhecimento mais interessante. Mas os problemas são muitos. A baixa remuneração dos professores, a falta de estrutura das escolas públicas e a evasão escolar são apenas alguns exemplos.

Reforma ortográfica

Puntel acredita que o acordo ortográfico que acaba de entrar em vigor e pretende unificar a ortografia da língua portuguesa entre os oito países que tem o português como idioma oficial não faz sentido. “A Reforma vai mudar uma porcentagem muito pequena das palavras utilizadas tanto no Brasil quanto em Portugal. Sua única finalidade é limpar alguns acentos e criar problemas”, argumenta, indicando o Vocabulário da Língua Portuguesa (VOLP), que já está sendo reeditado, como fonte de pesquisa para eventuais dúvidas.

Segundo o professor, a maior preocupação em relação à norma culta da língua deveria estar relacionada à capacidade de interpretação e composição de textos, à argumentação coerente e à criticidade dos cidadãos. “Nossa maior preocupação não deveria ser exclusivamente a maneira correta de grafar as palavras, já que há editores de textos e dicionários para sanar quaisquer dúvidas. A interpretação de um texto é mais importante do que sua grafia impecável. O fundamental é garantir que nossos alunos e futuras gerações saibam pensar com coerência”, afirma. Nesse contexto, portugueses e brasileiros, assim como angolanos e moçambicanos, continuarão empregando a língua portuguesa de formas distintas, com particularidades praticamente indecifráveis.
Texto: Luiza Meirelles

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