Oficina Literária Puntel
12.07.2010
Estímulo à Criticidade
ENTREVISTA AO JORNAL PIONEIRO - CAXIAS DO SUL/RS

Luiz Puntel fala de suas obras, voltadas ao público juvenil

 

Conhecido e lido principalmente por milhares de estudantes do país, uma vez que seus livros têm grande leitura em escolas, o escritor Luiz Puntel, 61 anos, esteve na última semana em Caxias do Sul para uma atividade que já se tornou constante em sua carreira literária: conversar com estudantes.

Professor, Puntel estreou na literatura em 1978, ao reunir textos que publicava num jornal e enviá-los para uma editora. O material foi aceito e, desde então, ele não parou mais de escrever, dedicando-se ao público juvenil. Hoje, soma 12 títulos nessa área e revela que tem um projeto para um livro adulto.

Em entrevista ao Pioneiro, o autor falou um pouco sobre o processo de criação de suas obras, que se destacam por trazer histórias interessantes com fundo social, como a questão dos boias-frias em Açúcar Amargo ou dos exilados da época da ditadura em Meninos sem Pátria. Confira trechos da conversa:

Pioneiro: Seus livros sempre têm, por trás da história, uma questão social. Você acredita que a literatura tem de ter um papel que extrapole o entretenimento?

Luiz Puntel:
Ao escrever, busco trazer a questão da visão social, não simplesmente um texto bem escrito. Tenho a preocupação de provocar no leitor uma volta para a realidade ao seu redor. Aqui em Caxias, por exemplo, não se tem a realidade dos cortadores de cana, mas em São Paulo isso é muito presente. Em Açúcar Amargo, mostro um universo que é, ao mesmo tempo, muito rico, pois traz divisas, mas também muito pobre, pois os boias-frias, na maioria migrantes, têm de cortar toneladas de cana ao dia, são mal pagos e há muitas denúncias de trabalho escravo. Em Meninos sem Pátria, abordo um tema que não se pode esquecer, os malefícios do tempo da ditadura, a censura. Pode-se pensar que isso hoje é passado, mas ela ainda existe, como no caso do jornal O Estado de S. Paulo, proibido de publicar matérias sobre a família Sarney.

Pioneiro: Como nascem esses livros? É preciso muita pesquisa sobre esses temas antes de escrever?

Puntel:
A ideia pode surgir de um fato, a partir das pesquisas que faço decido se a história sai ou não. Açúcar Amargo nasceu de uma greve de boias-frias, vi a notícia, veio a ideia. O universo de O Grito do Hip Hop, por exemplo, não é o meu mundo, mas a partir de pesquisas consegui mostrar um outro lado, diferente do que aparece na mídia.

Pioneiro: Qual a importância de escrever para o público juvenil? E desses encontros que ocorrem entre escritor e alunos/leitores?

Puntel:
No Brasil, literatura se faz assim, na escola. Estar aqui hoje vem ao encontro da necessidade do leitor de estar frente ao escritor, isso faz a leitura ter mais sentido, é um incentivo. O livro se torna mais interessante, deixa de ser algo só para a prova. Quando eu estudava, só líamos os clássicos. Eles são importantes, é claro, mas se não forem bem trabalhados, matam o leitor. Com os livros atuais para esse público, temos textos interessantes e que ajudam a aumentar o poder de criticidade do leitor. Eles conhecem outras realidades. Voltando a Meninos sem Pátria, é algo que o jovem de hoje não vivenciou, algo saído dos livros de História, que ele vai compreender melhor. Em O Grito do Hip Hop, ele vai ver um outro lado da favela, de pessoas que trabalham.

Pioneiro: Você também é professor. O que a convivência diária com seus alunos ajuda na hora de escrever?

Puntel:
Ela ajuda a mensurar a história, os diálogos, a formatação do texto. Quem escreve para essa faixa disputa com outros meios, como internet, MSN, TV, etc. Então tem de ser um texto ágil, com muitos diálogos e ação, não pode ser muito descritivo. Tem de prender o leitor desde a primeira página.

Pioneiro: Qual sua impressão das visitas às escolas gaúchas?

Puntel:
O público é muito receptivo. Percebo que aqui, não só em Caxias mas em todo o Rio Grande do Sul, há uma preocupação muito grande com a leitura. Na minha concepção, o gaúcho lê mais (do que no restante do país).

Pioneiro: E como leitor, quais autores gaúchos você conhece?

Puntel:
O Luis Fernando Verissimo, por exemplo, que tem ótimas crônicas, o Moacyr Scliar, o Mário Quintana, ótimo poeta. Aliás, o primeiro livro que eu autografei, em 1978, na Bienal do Livro, foi ao lado do Quintana, que também estava lá.

MARISTELA SCHEUER DEVES - maristela.deves@pioneiro.com


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