AUTO DA BARCA DO INFERNO - Cenas 7 e 8
SÉTIMA CENA: TANTO QUE BRÍSIDA VAZ SE EMBARCOU, VEIO UM JUDEU COM UM BODE ÀS COSTAS; E CHEGANDO-SE AO BATEL DOS DANADOS, DIZ
 
JUDEU - Que vai cá, hou marinheiro?
DIABO - Oh! Que má hora vieste?! ( O Diabo não quer receber o Judeu, porque ele insiste em preservar sua religião mesmo depois da morte. O bode é insígnia do judaísmo)
JUDEU - Cuja é (de quem) esta barca que preste?
DIABO - Esta barca é do barqueiro.
JUDEU - Passai-me, por meu dinheiro. (leve-me porque sou rico)
DIABO - E o bode há de cá vir? JUDEU - Pois também o bode há de ir.
DIABO - Que escusado! (desnecessário) passageiro! ...
JUDEU - Sem bode, como irei lá? 
DIABO - Nem eu nom passo cabrões!  (bodes)
JUDEU - Eis aqui quatro tostões e mais se vos pagará. Por vida do Semifará que me passeis o cabrão! Quereis mais outro tostão?  (Vendo-se recusado pelo Diabo, o Judeu tenta suborná-lo. Semifará pode ser seu nome)
DIABO - Nenhum bode há de vir cá.
JUDEU - Porque nom irá o judeu onde vai Brísida Vaz? Ao senhor meirinho apraz? Senhor meirinho, irei eu? ( O Judeu, em vida, era acostumado a mandar nas autoridades. Por isso, ordena que o Fidalgo (meirinho, uma espécie de juiz, interceda em seu favor) (Lembrar que no Memórias de um Sargento de Milícias, há a expressão meirinho)
DIABO - E ao fidalgo, quem lhe deu o mando, dize, do batel? 
JUDEU - Corregedor, coronel, castigai este sandeu! Azará, pedra miúda, lodo, chanto, fogo, lenha, caganeira que te venha, má corrença que te acuda! Par al deu que te sacuda co’a beca nos focinhos! Fazes burla dos meirinhos? Diz, filho da cornuda! (xingamentos contra o Diabo, como já aconteceu com os demais passageiros. Sandeu = louco, chanto = canto, corrença = caganeira, par al deu = por Deus, beca = roupa de magistrado)
JOANE - Furtaste a chiba (cabra), cabrão? Pareceis-me vós a mim gafanhoto d’Almeirim chacinado em um seirão. (morto numa festa) DIABO - Judeu, lá te passarão, porque vão mais despejados. (vazios. O Diabo não quer levar o judeu. Manda- para a barca do Anjo)
JOANE - E ele mijou nos finados na ergueja de São Gião! E comia a carne da panela no dia de Nosso Senhor! E aperta o salvador, e mija na caravela! (mijava na igreja e comia carne na Sexta-feira Santa) DIABO - Sus! Sus! Demos à vela! Vós, Judeu, ireis à toa, ( toa é corda que reboca barco. O Diabo leva o Judeu, mas em outra embarcação) que sois mui ruim pessoa. Levai  o cabrão na trela! (coleira) 
 
 
OITAVA CENA: VEM UM CORREGEDOR CARREGADO DE FEITOS (autos, processos) E, CHEGANDO À BARCA DO INFERNO, COM SUA VARA NA MÃO, DIZ:
 
 
CORREGEDOR - Hou da barca!
DIABO - Que quereis?
CORREGEDOR - Está aqui o senhor juiz!
DIABO - Ó amador de perdiz, (que gosta de mesa farta) gentil cárrega trazeis...
CORREGEDOR - No meu ar conhecereis (por meu aspecto reconhecereis) que nom é ela do meu jeito. DIABO - Como vai lá o direito?
CORREGEDOR - Nestes feitos o vereis.
DIABO - Ora pois, entrai, veremos que diz í nesse papel. (nos autos)
CORREGEDOR - E onde vai o batel? DIABO - No inferno vos poeremos.
CORREGEDOR - Como?! À terra dos demos há de ir um corregedor?!
DIABO - Santo descorregedor, (O Diabo sugere que o Juiz não corrige nada. Pelo contrário) embarcai e remaremos. Ora entrai, pois que viestes.
CORREGEDOR - Nom é de regulae juris, não. (não é da regra do direito. Gil Vicente, para ironizar a linguagem jurídica, coloca inúmeras frases em latim bárbaro na fala do juiz. O certo seria de regulis juris)
DIABO - Ita, ita! (sim, sim) Dai cá a mão, remareis um remo destes. Fazeis conta que nascestes pera nosso companheiro. - Que fazes tu, barzoneiro? (o Diabo chama de vadio ao Ajudante) Faze-lhe essa prancha prestes!
CORREGEDOR - Oh! Renego da viagem e de quem me há de levar! Há aqui meirinho do mar? (O juiz pergunta se há meirinho do mar para suborná-lo, como fazia em vida. O Diabo diz que lá não existe o costume das corrupções.)
DIABO - Não há cá tal costumagem.
CORREGEDOR - Nom entendo esta barcagem nem hoc non potest esse! (isto não pode ser)
DIABO - Se ora vos parecesse que nom sei mais que linguagem!... Entrai, entrai, Corregedor! CORREGEDOR - Hou! Videtis qui petatis! Super jure majestatis tem vosso mando vigor? (vede o que reclamais. Acaso vosso poder está acima do direito de majestade?)
DIABO - Quando éreis ouvidor, non ne accepistis rapina? (não recebestes propina?) Pois ireis pela bolina (cabos náuticos) onde nossa mercê for. Oh, que isca, esse papel pera um fogo que eu sei! CORREGEDOR - Domine, memento mei! (Senhor, não esquecei de mim!)
DIABO - Non est tempus (não há mais tempo) , bacharel! Imbarquemini in batel quia judicastis malicia.
CORREGEDOR - Semper ego justitia fecit, e bem per nivel. (Eu sempre fiz justiça)
DIABO - E as peitas (propinas) dos judeus que vossa mulher levava?
CORREGEDOR - Isso eu não o tomava, eram lá percalços seus. Nom som peccatus meus, peccavit uxor mea. (não são pecados meus. Quem pecava era minha mulher)
DIABO - Et vobis quoque cum ea não temuistis Deus. A largo modo adquiristis sanguinis laboratorum, ignorantes peccatorum Ut quid eos non audistis? (E vós igualmente não temestes a Deus. Explorastes a valer os lavradores e não os atendestes)
CORREGEDOR - Vós, arrais, non legistis que o dar quebra os penedos? Os dereitos estão quedos si aliquid tradidistis... (Ó capitão, por acaso não lestes... que para se praticar a justiça é preciso receber alguma coisa? Essa é a idéia dos versos em latim e português.)
DIABO - Ora, entrai nos negros fados! Ireis al lago dos cães e vereis os escrivães como estão tão prosperados.
CORREGEDOR - E na terra dos danados estão os evangelistas? (os homens da burocracia consideravam-se semelhantes aos evangelistas.)
DIABO - Os mestres das burlas (fraudes) vistas lá estão bem fragoados. (atormentados)
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