TERCEIRA CENA: VEM JOANE, O PARVO, E DIZ AO ARRAIS DO INFERNO:
JOANE - Hou daquesta!
DIABO - Quem é?
JOANE - Eu sou. É esta a naviarra nossa?
DIABO - De quem?
JOANE - Dos tolos.
DIABO - Vossa. Entra.
JOANE - De pulo ou de vôo? Hou! Pesar de meu avô! Soma: vim adoecer e fui má hora a morrer; e nela pera mi só?
DIABO - De que morreste?
JOANE - De quê?! Samicas de caganeira. (talvez)
DIABO - De quê?
JOANE - De caga-merdeira, má ravugem que te dê!
DIABO - Entra, põe aqui o pé.
JOANE - Houlá! Não tombe o zambuco. (espero que o barco não vire)
DIABO - Entra, tolaço eunuco, que se nos vai a maré!
JOANE - Aguarda, aguardai, houlá! E onde havemos nós de ir ter?
DIABO - Ao porto de Lucifer.
JOANE - Hã?!
DIABO - Ao Inferno. Entra cá.
JOANE - Ao inferno, eramá?!(má hora) Hiu! Hiu! Barca do cornudo! Pero Vinagre, beiçudo, beiçudo, rachador d’Alverca, huhá! Sapateiro da Candosa! Antrecosto (suporte) de carrapato! Hiu! Caga no sapato, filho da grande aleivosa! (filho de mulher adúltera. Aleivosia: falsidade, traição.) tua muler é tinhosa e há de parir um sapo chentado (sentado) no guardenapo, neto de cagarrinhosa! Furta-cebola! Hiu!hiu! Excomungado nas erguejas! Burrela, cornudo sejas! Toma o pão que te caiu, a mulher que te fugiu pera a Ilha da Madeira! Cornudo atá mangueira, o demo que te pariu! Hiu! Hiu! Lanço-te uma pulha de pica naquela! Hump!hump! caga na vela! Hiu! Cabeça de grulha! (tagarela) Perna de cigarra velha, caganita de coelha, pelourinho de Pampulha, mija n’agulha! Mija n’agulha!
CHEGA O PARVO AO BATEL DO ANJO E DIZ:
JOANE - Hou do barco!
ANJO - Que me queres?
JOANE - Quereis-me passar além?
ANJO - Quem és tu?
JOANE - Samica alguém. (talvez alguém)
ANJO - Tu passarás, se quiseres; porque em todos teus fazeres, per malícia nom erraste, tua simpreza te abaste para gozar dos prazeres. Espera entanto per í, veremos se vem alguém merecedor de tal bem que dava de entrar aqui.
QUARTA CENA: VEM UM SAPATEIRO COM SEU AVENTAL E CARREGADO DE FÔRMAS E CHEGA AO BATEL INFERNAL E DIZ:
SAPATEIRO - Hou da barca!
DIABO - Quem vem í? - Santo sapateiro honrado! (O Diabo é irônico aqui) Como vens tão carregado! SAPATEIRO - Mandaram-me vir assi... E pera onde é a viagem?
DIABO - Pera o lago dos danados.
SAPATEIRO - Os que morrem confessados onde têm sua passagem?
DIABO - Não cures de mais linguagem (chega de conversa); está é tua barca, esta!
SAPATEIRO - Arrenegaria eu da festa e da puta da barcagem! Como poderá isso ser, onfessado e comungado?! (O Sapateiro recusa embarcar porque morreu depois de se confessar e comungar.) DIABO - E tu morreste excomungado, nom o quisestes dizer. Esperavas de viver; calaste dous mil enganos; tu roubaste bem trinta anos o povo com teu mester. (ofício) Embarca, eramá pera ti, que há já muito que te espero.
SAPATEIRO - Pois digo-te que nom quero!
DIABO - Que te pês, (ainda que te custe) hás de ir, si,si!
SAPATEIRO - Quantas missas eu ouvi nom me hão elas de prestar?
DIABO - Ouvir missa, então roubar, é caminho pera aqui.
SAPATEIRO - E as ofertas que darão? E as horas dos finados?
DIABO - E os dinheiros mal levados - que foi da satisfação?
SAPATEIRO - Ah! Nom praza ao cordovão nem à puta da badana, (cordovão e badana são espécies de couro. O Sapateiro maldiz o instrumento com que ganhou a vida. ) se é esta boa traquitana (meio de transporte) em que se vê Joanantão! Ora juro a Deus que é graça!
VAI-SE À BARCA DO ANJO E DIZ:
SAPATEIRO - Hou da santa caravela, podereis levar-me nela?
ANJO - A cárrega te embaraça (a carga prejudica-te)
SAPATEIRO - Nom há mercê que me Deus faça? Isto uxiquer irá. (Isto, a carga, irá de qualquer maneira.)
ANJO - Essa barca que lá está leva quem rouba de praça (rouba publicamente) as almas embaraçadas.
SAPATEIRO - Ora eu me maravilho haverdes por grão peguilho (estorvo, incoveniente) quatro forminhas cagadas que podem bem ir í chantadas (ajeitadas) num cantinho desse leito!
ANJO - Se tu viveras dereito elas forma cá escusadas.
SAPATEIRO - Assi que determinais que vá cozer ao inferno? ANJO - Escrito estás no caderno das ementas (apontamentos) infernais.
TORNA-SE À BARCA DOS DANADOS E DIZ:
SAPATEIRO - Hou barqueiros, que aguardais? Vamos, venha a prancha logo e levai-me àquele fogo! Não nos detanhamos mais.