AUTO DA BARCA DO INFERNO - Cenas 1 e 2

            AUTO DA BARCA DO INFERNO – Gil Vicente

                     TEXTO INTEGRAL

PRIMEIRA CENA: O PRIMEIRO ENTRELOCUTOR É UM FIDALGO QUE CHEGA COM UM PAJEM QUE LHE LEVA UM RABO MUI COMPRIDO E UMA CADEIRA DE ESPALDAS. E COMEÇA O ARRAIS DO INFERNO DESTA MANEIRA ANTES QUE O FIDALGO VENHA: 
 
DIABO - À barca, à barca, houlá! Ora venha o caro a ré!  (o mesmo que carro, parte inferior das vergas nas velas triangulares)
COMPANHEIRO - Feito, feito!
DIABO - Bem está, vai tu, muiteramá! (em má hora) Atesa aquele palanco, (corda para suspender a vela), e despeja (limpa) aquele banco pera a gente que virá. À barca, à barca, uuh! Asinha (depressa), que se quer ir. Oh, que tempo de partir, louvores a Berzebu! Ora, sus! Que fazes tu? Despeja todo esse leito. (espaço entre o mastro central e a popa).
COMPANHEIRO - Em boa hora! Feito, feito!
DIABO - Abaixa má hora esse cu! Faze aquela poja lesta e alija aquela driça! (poja = corda com que se vira a vela) (driça= corda com que se levanta a vela) 
COMPANHEIRO - Oh caça! Oh iça! Iça!  (pega! Levanta! Levanta!) 
DIABO - Oh, que caravela esta! Põe bandeiras, que é festa! Verga alta! Âncora a pique! Ó poderoso dom Anrique (forma arcaica de Dom Henrique), cá vindes vós? Que cousa é esta?... 
 
VEM O FIDALGO E, CHEGANDO AO BATEL INFERNAL, DIZ: 
 
FIDALGO - Esta barca onde vai ora, que assi está apercebida? (preparada)
DIABO - Vai pera a ilha perdida (isto é, o Inferno) e há de partir logo essa hora.
FIDALGO - Pera lá vai a senhora? (O Fidalgo zomba do Diabo, chamando-o senhora)        
DIABO-Senhor, a vosso serviço.
FIDALGO - Parece-me isso cortiço. 
DIABO - Porque a vedes lá de fora.
FIDALGO - Porém, a que terra passais? 
DIABO - Pera o inferno, senhor. 
FIDALGO - Terra é bem sem sabor. 
DIABO - Quê? E também cá zombais? 
FIDALGO - E passageiros achais pera tal habitação?
DIABO-Vejo-vos eu em feição pera ir ao nosso cais...
FIDALGO - Parece-te a ti assi...
DIABO - Em que esperas ter guarida? (amparo, salvação) 
FIDALGO - Que leixo (deixo) na outra vida quem reze sempre por mi.
DIABO - Quem reze sempre por ti?!... Hi hi hi hi hi hi hi... E tu viveste a teu prazer cuidando cá guarecer por que rezam lá por ti?! Embarcai, hou! Embarcai!, que haveis de ir à derradeira... (de qualquer forma) Mandai meter a cadeira, que assi passou vosso pai. (o Fidalgo é acompanhado de um pajem que transporta sua cadeira. O Diabo afirma que o pai do Fidalgo também fora para o Inferno.)  FIDALGO - Quê? Quê? Quê? Assi lhe vai?! 
DIABO - Vai ou vem, embarcai prestes! (depressa) Segundo lá escolhestes, assi cá vos contentai. Pois que já a morte passastes, haveis de passar o rio.
FIDALGO - Não há aqui outro navio?           
DIABO - Não, senhor, que este fretastes, e primeiro (assim) que expirastes, me destes logo sinal.   FIDALGO - Que sinal foi esse tal?
DIABO - Do que vós vos contentastes.
FIDALGO - A estoutra barca me vou. - Hou da barca, para onde is? Ah, barqueiros!, não me ouvis? Respondei-me! Houlá! Ho!... - Par Deus! Aviado estou!...(estou perdido) - Quant’a isto é já pior. Que giricocins, (burros)  salvanor! (com o devido respeito) Cuidam que sou eu grou? (ave) 
ANJO - Que quereis?
FIDALGO - Que me digais, pois parti tão sem aviso, se a barca do paraíso é esta em que navegais. ANJO - Está é; que demandais?     
FIDALGO - Que me leixeis (deixeis) embarcar; sou fidalgo de solar (família importante), é bem que me recolhais.
ANJO - Não se embarca tirania neste batel divinal.  
FIDALGO - Não sei porque haveis por mal que entre a minha senhoria.
ANJO - Pera vossa fantesia mui estreita é esta barca. 
FIDALGO - Pera senhor de tal marca nom há aqui mais cortesia? Venha prancha e atavio! (equipamentos para subir ao batel.) Levai-me desta ribeira!  
ANJO - Não vindes vós de maneira pera ir neste navio. Essoutro vai mais vazio: a cadeira entrará, e o rabo (cauda da roupa de Fidalgo) caberá, e todo vosso senhorio. Vós ireis mais espaçoso, com fumosa (pretensiosa) senhoria, cuidando na tirania do pobre povo queixoso; e porque, de generoso, desprezastes os pequenos, achar-vos-eis tanto menos quanto mais fostes fumoso. (o sentido é que o sofrimento no inferno será proporcional à altivez que ostentou em vida). 
DIABO - À barca, à barca, senhores! Oh! Que maré tão de prata! Um ventezinho que mata e valentes remadores!    DIZ CANTANDO: “Vós me venirés a la mano, a la mano me veniredes.” 
FIDALGO - Ao Inferno todavia! Inferno há í (aí) pera mi?! Ó triste! Enquanto vivi não cuidei que o í havia. Tive que era fantesia: fogava ser adorado; confiei em meu estado e nom vi que me perdia. - Venha essa prancha! Veremos esta barca de tristura. 
DIABO - Embarque a vossa doçura, que cá nos entenderemos... Tomareis um par de remos, veremos como remais; e, chegando ao nosso cais, todos bem vos serviremos.  
FIDALGO - Esperai-me vós aqui: tornarei à outra vida ver minha dama querida que se quer matar por mi. (lembrar Sísifo tentando driblar a Morte para voltar à vida dos vivos) 
DIABO - Que se quer matar por ti?!!  
FIDALGO - Isto bem certo o sei eu. 
DIABO - Ó namorado sandeu, ( louco) o maior que nunca vi! 
FIDALGO - Como poderá isso ser, que me escrevia mil dias?!  
DIABO - Quantas mentiras que lias, e tu... morto de prazer! (feliz em ser enganado) 
FIDALGO - Pera que é escarnecer, que nom havia mais no bem? (o Fidalgo afirma que o amor de sua mulher por ele era inigualável)   
DIABO - Assi vivas tu, amén, como te tinha querer! (O Diabo insinua que o Fidalgo deve permanecer na ilusão de que era amado).
DIABO - Pois, estando tu expirando, se estava ela requebrando com outro de menos preço.  
FIDALGO - Dá-me licença, te peço, que vá ver minha mulher.
DIABO - E ela, por não te ver, despenhar-se-á dum cabeço. (Para livrar-se do Fidalgo, sua esposa jogar-se-ia  do alto de um penhasco) Quanto ela hoje rezou antre seus gritos e gritas, foi dar graças infinitas a quem a desassombrou. (abandonou) 
FIDALGO - Quanto ela bem chorou! 
DIABO - Nom há í choro de alegria?! 
FIDALGO - E as lástimas que dezia? 
DIABO - Sua mãe lhas ensinou. Entrai! Entrai! Entrai! - Ei-la! Prancha! - Ponde o pé!
FIDALGO - Entremos, pois que assi é...
DIABO - Ora, senhor, descansai, passeai e suspirai, entanto virá mais gente.  
FIDALGO - Ó barca, como és ardente! Maldito quem em ti vai!
DIZ O DIABO AO MOÇO DA CADEIRA: 
DIABO - Nom entras cá! Vai-te daí! A cadeira é cá sobeja. (desnecessária) Cousa que esteve na igreja nom se há de embarcar aqui. Cá lhe darão de marfi, marchetada de dolores (dores), com tais modos de lavores, que estará fora de si... - À barca, à barca, boa gente, que queremos dar a vela! Chegar a ela! Chegar a ela! Muitos e de boa mente! Oh, que barca tão valente!
 
 
SEGUNDA CENA: VEM UM ONZENEIRO (agiota) E PERGUNTA AO ARRAIS DO INFERNO, DIZENDO:
 
 
ONZENEIRO - Pera onde caminhais?
DIABO - Oh! Que má hora venhais, onzeneiro meu parente! Como tardastes vós tanto? (Por não ter consciência, o Diabo o considera seu parente)
ONZENEIRO - Mais quisera eu lá tardar. Na safra do apanhar me deu Saturno quebranto. (Saturno = Cronos, que simboliza o Tempo) 
DIABO - Ora mui muito m’espanto nom vos livrar o dinheiro.
ONZENEIRO - Solamente pera o barqueiro nom me leixaram nem tanto. ( pagar o barqueiro do Inferno vem da mitologia clássica) 
DIABO - Ora entrai, entrai aqui! 
ONZENEIRO - Não hei eu í de embarcar! 
DIABO - Oh, que gentil recear, e que cousas pera mi!... 
ONZENEIRO - Ainda agora faleci, leixa-me buscar batel. (deseja escolher o barco) Pesar de São Pimentel!   (A.J.Saraiva supõe que Pimentel fosse personagem conhecida do público de Gil Vicente) Nunca tanta   pressa vi! Pera onde é a viagem?
DIABO - Pera onde tu hás de ir. 
ONZENEIRO - Havemos logo de partir?  
DIABO - Não cures de mais linguagem. (chega de conversa)
ONZENEIRO - Pera onde é a passagem? 
DIABO - Pera a infernal comarca.  
ONZENEIRO - Dix! (interjeição de espanto), nom vou eu em tal barca! Estoutra tem avantagem.
 
 VAI-SE O ONZENEIRO À BARCA DO ANJO, E DIZ: Hou da barca! Houlá! Hou! Haveis logo de partir?   
 
ANJO - E onde queres tu ir?  
ONZENEIRO - Eu pera o paraíso vou.  
ANJO - Pois quant’eu (quanto a mim) mui fora estou de te levar para lá. Essa barca que lá está vai pera quem te enganou.
ONZENEIRO - Por quê? 
ANJO - Porque esse bolsão (alusão ao tamanho da usura do Onzeneiro, cuja bolsa ocuparia todo o navio) tomara todo navio. 
 ONZENEIRO - Juro a Deus que vai vazio!  
ANJO - Não há no teu coração. (a bolsa está vazia, mas o coração do Onzeneiro está cheio de ambição)   ONZENEIRO - Lá me fica de roldão minha fazenda e alheia. (O Onzeneiro afirma que deixou na terra o dinheiro dele e o das pessoas que roubara) 
ANJO - Ó onzena (usura, ambição), como és feia e filha da maldição!  
 
TORNA O ONZENEIRO À BARCA DO INFERNO E DIZ:
 
ONZENEIRO - Houlá! Hou, demo barqueiro! Sabeis vós no que me fundo?  (em que me baseio?) Quero lá tornar ao mundo e trarei o meu dinheiro. Aqueloutro marinheiro, porque me vê vir sem nada, dá-me tanta borregada (insulto), como arrais lá do Barreiro.  
DIABO - Entra, entra, remarás! Não percamos mais maré! 
ONZENEIRO - Todavia...  
DIABO - Per forc’é, que te pês, cá entrarás! (é forçoso que embarques, ainda que te custe.) Irás servir Satanás, porque sempre te ajudou. 
 ONZENEIRO - Ó triste, quem me cegou?! 
DIABO - Cal’-te, que cá chorarás.  
 
ENTRANDO O ONZENEIRO NO BATEL QUE ACHOU O FIDALGO EMBARCADO, DIZ, TIRANDO O BARRETE: 
 
ONZENEIRO - Santa Joana de Valdês! (alusão a personagem conhecida do público de Gil Vicente) Cá é vossa senhoria?! 
FIDALGO - Dá ao demo a cortesia! 
DIABO - Ouvis? Falai vós cortês! Vós, Fidalgo, cuidareis que estais em vossa pousada? Dar-vos-ei tanta pancada com um remo, que arrenegueis! (O Diabo reclama que os dois conversam)
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