Oficina Literária Puntel
LUIZ PUNTEL - 10.12.2009
E O ENEM, HEIN, MEU BEM?

Foi só eu pôr o pé em casa, minha esposa, lá da sala de TV, grita:
 “ - VOCÊ VIU ONDE METERAM O ENEM, MEU BEM?” 
 Sorry, periferia! Até hoje, mesmo depois de 35 anos de convívio conjugal, o “meu bem” da amada ainda soa como trinados em meus ouvidos.
- Mas... como assim... onde... meteram o.. o...  o Enem? – eu redargui, perplexo, ainda sem entender, com cara de “onde está o Wally?”
- Estava metida na cueca do rapaz da gráfica! – ela gargalhou gostoso. Será que ela estaria imaginando coisas, discreto leitor? Não, por favor, não queiram fazer trocadilhos!
- Outra vez? – ainda perplexo, eu dava tempo para entender que rapaz era aquele que metera a prova do Enem na cueca e... – gulp! - que cueca era aquela?
Enem, qualquer pai de aluno sabe, e os alunos muito mais, é o Exame Nacional do Ensino Médio; na verdade, mais um vestibular a que os estudantes estão sujeitos, já que o Estado não cumpre sua função de disponibilizar educação neste Brasil que se diz de todos, e atazana a galera com prova em cima de prova. 
- Já não chega as canções mela-cueca do Wando, os dólares na cueca daquele secretário do irmão do Genuíno, e agora até o Enem foi parar na cueca de um... um... rapaz? – eu arriei no sofá, finalmente entendendo que rapaz era aquele, que cueca era aquela a que meu bem se referia! Ufa!
                                                           *
Dólares e provas na cueca à parte, a esperteza de três ou quatro malandros gerou o maior auê neste país de todas as provas. Mães se descabelaram, professores traçaram estratégias possíveis, candidatos apalermados veem (agora sem acento, por favor!) congestionamento de provas no fim do túnel, isto é, no fim do ano. O que fazer, não fazer...é a pergunta que não quer se calar.
Mas, passado o susto, de posse da prova anulada, depois de analisar as questões, aqui vai um aviso às mães desesperadas, que esperavam mudanças radicais no Enem: só mudou o nome da prova, meninas! Agora deram o pomposo nome de Linguagens, Códigos e suas Tecnologias e, de sobra, a prova de Redação, que no tempo das saudosas fessoras Lucy Musa Julião e Florianete Guimarães era mesmo Prova de Português e ai de nós se não tirávamos pelo menos 5, que era a nota mínima de então! Mas tudo bem com o Enem, meu bem! No país das Nomenclaturas, o nome ficou até mais chique no úrtimo, não é mesmo?
Afirmei que só mudou o nome da prova da área Língua Portuguesa e é verdade. O tema de redação, por exemplo, foi repeteco da prova do meio de ano da Unesp 2007. Há dois anos, a Unesp pediu para os candidatos discutirem A QUESTÃO DO IDOSO NO BRASIL. A prova do ENEM, meu bem, tinha como tema VALORIZAÇÃO DO IDOSO. Você já tomou café requentado, certo? Pois então!...
Quanto à linguagem técnica exigida nas 45 perguntas, nenhuma novidade. Todo candidato que tem tido orientação dos competentes professores das escolas regulares ou de cursos preparatórios sabe interpretar o “efeito de humor” nas tirinhas. Sabe que, em cartas de pedidos de emprego, a norma da língua é a “norma padrão”. Sabe também o que caracteriza os diversos “tipos textos”, os verbais ou não-verbais: seja uma narrativa, resenha de filme, tirinha da Mafalda, do Garfield, textos publicitários ou poemas, como pediram na prova. Certamente, consegue definir o que seja “variedade linguística”, e consegue, sem esforço, diferençar uma metáfora de uma metonímia ou de uma anáfora, e, consequentemente, estabelecer a diferença entre “linguagem denotativa e conotativa”. Não tem dificuldade também em descobrir o fenômeno da “intertextualidade”, como sabe detectar as seis “funções da linguagem”, normatizadas pelo teórico russo Roman Jakobson. Sabe o que é “eu lírico” e também que a fumacinha de índios, cara pálida, só pode ser decodificada na hora de sua emissão, como sabe que pauta musical é decodificada sem o auxílio da língua falada.
Há, porém, uma coisa que os candidatos e suas desesperadas mães não sabem e não entendem: como é que o rapaz da gráfica mete a prova na cueca e ninguém da segurança vê? Ninguém da segurança confere a prova, ou seja, as imagens no dia a dia (também agora sem hífen, por favor!) dos dias da impressão? Se os candidatos merecem dez porque fizeram a lição de casa, os responsáveis pelo Enem, meu bem, merecem zero!
 
 


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