Se você não tem 60 anos, prezado leitor ou cara leitora, não se afobe, um dia você fará parte do clube. Li outro dia, que cada diz mais o Brasil se envelhece. É questão de tempo, tá? Agora, se você já chegou lá, me responda rapidinho: quando foi que você descobriu que já estava idoso ou idosa? Não se lembra? Eu, infelizmente, me lembro direitinho de como tudo aconteceu. Sabe quando se está no lugar errado, na hora errada, conversando com a pessoa errada?
Minto! Eu não estava conversando com a pessoa errada. Para ser sincero, eu não estava conversando com ninguém. Cheguei, muito disciplinado, encostei atrás do último e me pus a esperar que a labiríntica e serpenteante fila andasse.
O leitor certamente já percebeu onde eu estava. Infelizmente, o dia era segunda-feira. E - mais infelizmente ainda - começo de mês. O lugar, o leitor também já percebeu, tratava-se de fila de banco.
Eu ali, quietinho, e a fila – plect plect! – demorava uma eternidade para avançar dois passos apenas. Na minha frente, vários mensageiros me lembravam o office boy que fui nos idos e vividos da década de sessenta, na então Braghetto & Leão, pedalando trim trim trim de banco em banco. Olhei as mãos cheias de papéis, todos portando depósitos a serem processados, carnês e guias de impostos a serem pagos, o que anunciava mais lentidão na fila.
Foi quando eu percebi, ali à frente, uma jovem predicativosa me olhando. E que olhar, rapazes! Neruda certamente o definiria como olhar oceânico, de tão verdes eram os olhos dela!
Conforme a fila ziguezagueava, lá vinha o olhar dela cruzando com o meu! No começo, achei coincidência apenas, mas depois de três ou quatro olhadas mais insistentes não tive mais dúvida. Definitivamente, leitores, ela me olhava! Será que me conhecia? Liguei o gps do pensamento e ele não acusou nenhum registro. Não era ex-aluna, nem vizinha, nem conhecida. Mas que ela me olhava, ah, olhava sim!
Não, nunca tive vocação pra tio Sukita, lembram-se dele? Mas confesso que, até dei uma olhadinha de soslaio no vidro fronteiriço, ajeitei a gola da camisa e, disfarçadamente, repaginei os cabelos.
Mas, o que de mim chamava a atenção da predicativosa moça? Certamente não era a barriguinha de chope. Muito menos minha altura mediana, com l,68 quando calmo; 1,70 quando nervioso! Seria, então, o meu porte nada atlético? Não, caros leitores!
Bingo! Finalmente, descobri! Mas claro! Eram os cabelos! Só poderia ser, como vim a confirmar logo depois. Inicialmente, cheguei mesmo à conclusão de que eu tinha razão em não deixar o Daniel, meu cabeleireiro lá do Irajá, meter tinta nos meus grisalhos cabelos. Depois do ocorrido, eu até pensei em tingi-los de preto retinto como a noite sem luar, mas desisti.
Gente, ela deu mais uma olhada, abriu um sorriso lindo, lindo, e eu já ia dizer muito prazer como vai tudo bem, você sempre vem aqui?, quando ela disparou à queima-roupa:
- Tiozinho, por que o senhor não pega a fila dos idosos? Vai mais rápido! — e ela apontava um caixa mais tranquilo à frente.
Não riam, por favor! Isso não, gente! Não chega o carão que eu passei na hora, e ainda tenho que ouvir a sonora gargalhada de vocês? Humpf!
Ainda olhei para trás, certo de que ela se dirigia a um velhote que me sucedia na fila. Que nada! Era pra minzinho mesmo que ela me lançava aqueles olhos oceânicos!
Gente, meu sorriso virou salamargo, meu queixo despencou no chão, eu não sabia onde enfiava a cara, e nem queria sugestão, tá? Se o leitor já passou por constrangimento dessa monta, sabe como o humor da gente vai parar lá no calcanhar, a gente querendo que o chão se abra num buraco para desaparecer sem dar notícia.
Se foi difícil para eu me recuperar? Claro que foi! Cheguei em casa arrasado. Lógico que omiti o caso à patroa e fiz um esforço danado para dar umas quatro ou cinco garfadas na gororoba do almoço.
Mas faz um certo tempo a esta parte, eu acho que a patroa já desconfia que vou direto pro caixa dos idosos, sabiam? Ela tem me pedido com uma certa frequência, para ir ao banco. Reclamo, mas ela abre um sorriso largo e diz:
— É que você vai rapidão, maridão!
Pano rápido, por favor! E não se fala mais nisso!...