Oficina Literária Puntel
Elenilson Nascimento - 09.07.2009
Artigo sobre CAPITÃES DA AREIA - atente para as fotos.

Quarta-feira, 9 de Abril de 2008

CAPITÃES DA AREIA

Sao bem conhecidas as restrições que a crítica adocicada brasileira sempre fez a Jorge Amado: "ausência de preocupação formal e de profundidade psicológica; decorrência regionalista; repetição de clichês estilísticos e de personagens estereotipadas que apenas reiteram as imagens de um Brasil exótico, comer- cial" (Cult, nº 50). Eu mesmo já tive meus preconceitos com relação à obra do Jorge, isso devido às minhas inúmeras e precárias aulas em colégios públicos de Salvador, onde os professores só se limitavam a dizer que o autor era uma péssima influência e que só gostava de falar de putas e vagabundos, além de dizerem que, para Jorge Amado, "todas as mulheres eram mulheres da vida, com exceção da Zélia e da mãe dele". Mas, mesmo eu tendo repetido essas pitorescas observações em sala de aula depois de ter me tornado professor (e que, felizmente, não me presto mais a esse papel humilhante), descobri que o que muitos “mestres” pregam como "verdades absolutas" sobre a obra do Jorge, não passa de venenosas mentiras.
Há uma leitura diametralmente oposta a esse discurso ultrapas- sado e moralista que comprova a importância da obra desse baiano “aretado”, legitimada pela recepção mesmo entre um público menos "cultivado" e não pela morte do autor – já que aqui no Brasil autores se tornam grande e verdadeiramente importantes depois de mortos – que o Jorge (se estivesse vivo) daria um sorriso largo de ironia pelas polêmicas ainda provocadas por seus livros decorrentes da voluptuosidade sexual e gastronômica apimentada que ele fazia questão de ostentar sob aquelas camisas horrivelmente floridas. E parece que o Jorge gostava mesmo era de conferir verossimilhança a todas as suas personagens: “... porque os negros, mesmo quando estão andando naturalmente, é como se dançassem”.
EU, JORGE E A MINHA IGNORÂNCIA – Em "Capitães da Areia" (1937), por exemplo, que confesso aqui nunca ter tido a curiosidade para fazer uma leitura mais atenta devido justamente há anos de confinamento na minha própria ignorância catequizada em salas de aula, é uma obra única e um dos livros mais reeditados. E isso ocorre principalmente por causa da realidade cruel que a gente dissimula na mesa de janta, mas que não deveria ser ignorada por ninguém e contínua atualíssima nos becos e periferias da Bahia. Até o Lula já disse estar cansado de ver, de um lado, as belezas do Brasil e do outro, a periferia, como se apenas lá houvesse violência. É mesmo? “Mas tu espia os homens, tá tudo triste. Não tou falando dos rico. Tu sabe. Falo dos outros, dos das docas, do Mercado. Tu sabe... tudo com cara de fome, eu nem sei dizer. É um troço que sinto...”
Já o Antônio Houaiss, no pósfacio do livro, confessou sentir inveja dos que vão ler os “adultificados” adolescentes (muitos deles crianças) de “Capitães...” pela primeira vez, defende o Jorge pela coragem em denunciar o descaso da sociedade (isso nos anos 30) com relação aos meninos de rua jogados ao deus-dará. Mas, ao contrario do Houaiss, não acredito mais em futuro para esse país de “merda”: não chegaremos lá nunca – mesmo com o Lula fazendo “amizades” com o Chaves e alardeando o crescimento devastador desse país.
Em “Capitães...” (que todo mundo troca a preposição “DA” por “DE”), Jorge exemplifica como e por que os trombadinhas existem, resistem, insistem, persistem e subsistem nestes tantos brasis, mesmo com a crítica pernóstica ostentando Jorge como vítima de suas próprias idealizações, como se a problemática dos menores abandonados fosse algo idealizado, só encontrado na ficção. A "cidade alta" com seus bairros ricos (Barra, Vitória e Graça) é que serve de cenário na história. Pedro Bala é o chefe de um grupo de jovens arruaceiros que roubam para sobreviver (é só você abrir os jornais todos os dias para encontrar vários deles por lá). Nunca ninguém havia mencionado em literatura um bando de jovens que engenhosamente desafia as autoridades, roubando a classe privilegiada e dividindo o produto do roubo entre os seus camaradas subnutridos. Talvez você lembre de Robin Hood (o herói mítico inglês, fora-da-lei que roubava dos ricos para dar aos pobres, no tempo do Rei Ricardo Coração de Leão), mas ele não pode ser comparado à vida dos meninos de rua em Salvador – até os dias de hoje, em pleno século XXI.
Embora o livro seja claramente uma obra de protesto, não se vale de ocas figuras centrais que se limitem a expor determinadas filosofias, tampouco marcas negativas como muitos críticos ainda teimam em dizer. Ao contrário, todas as personagens são muito bem caracterizadas, ainda que um tanto sentimentalmente incapazes de combater com excessivo preconceito do narrador onisciente – tática propositalmente engendrada pelo autor.
OS “CARAS” E A MENINA – Os personagens são em sua maioria masculinos e dentre eles, o já citado Pedro Bala, o de longos cabelos loiros e uma cicatriz no rosto, uma espécie de pai para todos os garotos do trapiche, mesmo sendo tão jovem quanto os outros, que depois descobre ser filho de um líder sindical morto durante uma greve, cuja agilidade sugerida pelo apelido merece especial atenção, além do padre José Pedro (me vi várias vezes nesse cara), Barandão, Querido-de-Deus (o que ensinava os meninos a lutar capoeira), João Grande, Volta Seca (o que era fã de Lampião), Boa Vida (o que fazia sambas e cantava pelas ruas), Gato (o malandro charmoso que tinha um caso com a prostituta Dalva), Sem Perna (o que era muito esperto), Pirulito (o que tinha hábito de rezar) e Professor (com seus olhos de míope, o que gosta de livros e com seu dom de pintar, fora ao Rio de Janeiro tentar sucesso) são os mais destacados. Além de Dora (que morreu como uma santa, pois havia sido boa, para virar estrela de Pedro Bala e ir para as Terras do Sem-Fim, referencia a um outro livro de Jorge), a única figura feminina merecedora de destaque, pois ela passa a assumir o referencial feminino da família, a mãe. Para alguns ela é uma mãe, para outros uma irmã, e para Pedro Bala, a namorada. E ao mesmo tempo em que eles se relacionam bem com o padre José Pedro (com sempre, a igreja não se mostrava preocupada com os problemas dos menores abandonados, mesmo o padre passando com sérios apuros por ter se interessado em ajudá-los), eles também se dão bem com a Mãe de Santo D. Aninha. Envolviam-se no candomblé, capoeira e respeitavam a igreja.
DENUNCIANDO NO LIVRO – As denuncias feitas por Jorge são coisas assustadoramente contemporâneas (nada mudou). O reformatório é um antro de crueldades e a polícia os caçam como adultos antes de se tornarem um. O apogeu da primeira parte de “Capitães...” é dividido em, quando os meninos se envolvem com um carrossel mambembe de Nhozinho França que chegou a Salvador (pura poesia exercendo a meninez dos garotos) e quando a varíola ataca a cidade matando um deles (coisa que acontece ainda no Brasil com a epidemia de febre amarela e dengue). A segunda parte, "Noite da Grande Paz, da Grande Paz dos teus olhos", surge uma história de amor quando Dora torna-se a primeira "capitã", e mesmo que inicialmente os garotos tentem estupra-la, ela se torna como mãe e irmã para todos. O homossexualismo é comum no grupo, mesmo que em dado momento Pedro Bala tente impedi-lo, e todos eles estejam acostumados a "derrubar negrinhas" no areal.
O final do livro vai nos mostrando a desintegração dos líderes do grupo. Sem-Pernas se mata antes de ser capturado pela polícia que odeia, jogando-se do Elevador Lacerda; Professor parte para o Rio de Janeiro para se tornar um pintor de sucesso, entristecido com a morte de Dora; Gato se torna uma malandro de verdade, abandonando eventualmente sua amante Dalva; Pirulito se torna frade; o padre José Pedro finalmente consegue uma paróquia no interior (bem distante da capital) e vai ajudar os desgarrados do rebanho do Sertão; Volta Seca se torna um cangaceiro de verdade do grupo de Lampião e mata mais de 60 soldados antes de ser capturado e condenado pela Justiça; João Grande torna-se marinheiro (lembrei-me do livro “Bom-Crioulo” de Adolfo Caminha); Querido-de-Deus continua sua vida de capoeirista e malandro; Pedro Bala, cada vez mais fascinado com as histórias de seu pai sindicalista, vai se envolvendo com os doqueiros e finalmente os Capitães de Areia ajudam numa greve à beira da Ladeira da Montanha. Curioso foi que eu fui visitar depois da leitura alguns lugares citados no livro, como o palacete do dr. Alcebíades na Ladeira de São Bento (que não tenho certeza de tê-lo encontrado), o tal areal (que deve ser o de Itapoan), a estação da Calçada – hoje completamente decadente, e também a Ladeira da Montanha,
Com os “Capitães...” aprendemos que “as crianças pobres são desgraçadas em toda parte, que os ricos perseguem e mandam em toda parte”, que “os homens valentes têm uma estrela no lugar do coração” e que “só a miséria dos homens é terrível”, além da maneira de Exu, orixá que representa o movimento, Jorge soube se comunicar com elites e camadas populares e transitou livremente entre a identidade e a verdadeira criação. Mas o Sistema de Repressão às crianças delinqüentes continua tão falho quanto nos anos 30, quando o livro foi escrito. Não se recupera ninguém em instituições fechadas que desrespeitam e punem, ao invés de educarem. Chegam lá ruins e saem piores do que entraram, enquanto os Poderes Públicos continuam de olhos bem fechados. Todos já se esqueceram do Sandro... Quem? Aquele rapaz (foto ao lado) que foi sobrevivente da Chacina da Candelária. Alguém ainda lembra? Eles (a polícia) matam em frente à uma igreja. Então, o Sandro sobreviveu e depois foi roubar os passageiros do ônibus da Linha 174 e foi morto pela polícia, após 4 horas mantendo os passageiros de um ônibus reféns. Como cresceu na rua, não estudou. Não sabia ler. O que se faz aos dezoito anos de idade depois de ter visto, com seis anos de idade, a sua mãe ser morta? Quem dá trabalho? E aí? Como fica? Vai roubar. Vai cheirar. E terminar sendo morto para não ser mais um problema para a sociedade. Pois é, os capitães da areia continuam por aí. (“CAPITÃES DA AREIA” de Jorge Amado, romance, Série Grandes da Literatura Brasileira, 250 págs, São Paulo, Círculo do Livro – 1937).


P.S. PROCURA-SE UMA DORA DESESPERADAMENTE
A Lagoa Cultural, associada à Sky Light Cinema, e reconhecidamente uma das mais importantes produtoras cinematográficas do Brasil desde 1975 (responsável por filmes como “Mauá - O Imperador e o Rei”, de Sérgio Rezende (1999), “O Veneno da Madrugada” de Ruy Guerra (2005), entre outros) está procurando uma atriz para fazer o papel de Dora no filme “Capitães da Areia” (em produção de Cecília Amado – neta de Jorge). Se você conhece alguém com as características desejadas

    


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