Oficina Literária Puntel
Paula Gobbi, Los Angeles Times - 09.07.2009
PARALELO BOFF E PADRE JOSÉ PEDRO, DE CAPITÃES DA AREIA.

    

 

Leia a entrevista do ex-frei LEONARDO BOFF. Depois faça um paralelo entre o seu "silêncio obsequioso", imposto pelo então Cardeal Ratzinger, hoje o Papa Bento XVI e as sanções sofridas por padre José Pedro, do romance CAPITÃES DA AREIA, de Jorge Amado.  

 

 

Entrevista dada a Paula Gobbi, jornalista do Los Angeles Times (gobbi@gbl.com.br)

1) Quando o sr. conheceu Joseph Ratzinger? Tenho entendido que ele foi seu supervisor de disertação de Douturado. Isso e correto. Como era sua relação então?

Poderia descrevê-lo? (era severo, amigavel, exigente?)


R. Eu conheci Joseph Ratzinger na Alemanha como professor e grande conferencista nos fins dos anos 60 do século passado, teólogo que fazia críticas ao centralismo romano e que pedia mais liberdade para a teologia poder dialogar sem constrangimentos com as tendências da cultura contemporânea. Depois, quando terminei minha tese doutoral foi ele que a leu e se entusiasmou tanto que achou uma editora para publicá-la ajudando-me até financeiramente com uma substanciosa soma. Sempre foi uma pessoa afável e extremamente cortes.

 

2) Quando o chamou a aparecer frente o tribunal de doutrina? Qual era o motivo? Por que motivo o sr. foi escolhido entre outros?


R. Em 1982, escrevi um livro chamado “Igreja: carisma e poder”,  no qual aplicava as intuições da Teologia da Libertação às condições internas da Igreja. Ai denunciava a opressão da mulher, o atropelo dos direitos humanos, a concentração de poder nas mãos do clero e o controle severo das doutrinas. Isso não agradou o Vaticano. Recebi um processo judicial junto a ex-Inquisição presidida pelo Cardeal J. Ratzinger. Em 1984, sentei na mesma cadeira onde se sentou Galileo Galilei e Giordano Bruno e durante três horas fui interrogado pelo Cardeal. Depois fui punido, pois me impuseram o silêncio obsequioso, uma espécie de silêncio penitencial, fui deposto da cátedra de teologia sistemática e ecumênica e proibido de escrever e publicar. Mas onze meses depois fui liberado. Meu julgamento foi feito no contexto da publicação da Instrução contra a Teologia da Libertação, que foi lançada três dias antes do meu julgamento. Assim se criou a atmosfera de julgamento e de condenação também da Teologia da Libertação, que na época mobilizou a opinião pública mundial que apoiava este tipo de teologia porque se ocupava dos pobres do mundo e da justiça necessária, questões éticas de grande dignidade que comoveram as pessoas e as irritaram contra Roma.

 

3) Poderia descrever o procedimento do tribunal? Por exemplo, foi dentro do Vaticano, quantos dias durou, e quantas pessoas o questionavam. Era um ambiente amigável ou hostil?


R. Não tenho prazer em escrever sobre estas coisas, pois elas são psicologicamente muito traumatizantes. Fui introduzido no Palácio del Santo Offizio, a antiga Inquisição, onde se praticavam as torturas. Atravessei acompanhado pelo Cardeal vestido de forma oficial, um imenso salão todo acarpetado e cheio de quadros renascentistas nas paredes. No final, havia uma pequena sala onde ocorreu o interrogatório. Ele se deu entre eu e o Cardeal frente a frente. Um notário ao lado anotava tudo. O ambiente era severo e pesado. O Cardeal fazia as perguntas e apenas escutava. Discutíamos alguns pontos que não cabe aqui detalhar. Assim foram três horas. No final, houve outra parte na qual participaram dois Cardeais Brasileiros - Dom Paulo Evaristo Arns, de São Paulo e Dom Aloisio Lorscheider, que vieram a Roma para me apoiar e para dizer ao Cardeal Ratzinger que ele podia julgar doutrinariamente minha teologia, mas que eles como Pastores queriam testemunhar que ela fazia bem aos fiéis e era boa para a Igreja. Mas isso não ajudou nada pois mesmo assim fui condenado.

 

4) Como era Ratzinger durante as audiências? Era profissional ou impessoal, pastoral ou comprensivo, aumento o tom de voz ou foi afetuoso?

 

R. O Cardeal foi sempre afável e elegante. Nunca ergueu a voz. Era fácil ser benevolente, pois tinha todo o poder em suas mãos. Percebi que ele possui uma inteligente brilhante e conceitos claros e distintos como queria Descartes. Mas não possui a cordialidade do pensamento que vai ao encontro do outro para também aprender. Ele se sente o portador da verdade. Desde 1972 que eu tinha problemas com a Congregação para a Doutrina da Fé. Praticamente cada livro que publicava provocava cartas de explicação vindas de Roma. O julgamento do livro “Igreja: carisma e poder” representou uma culminância. Aí tive a nítida impressão que a lógica da Congregação é a mesma da antiga Inquisição. Mudaram os métodos, pois não mais torturam os corpos, mas a vontade de condenar é a mesma o que tortura a psiqué pela marginalização, desmoralização e difamação que fazem do teólogo diante dos bispos, proibidos de lhe convidar para assessorias, retiros ou palestras. A Congregação não perdoa nada, não esquece nada e cobra tudo. Não me parece que tal atitude tem algo a ver com o espírito evangélico.

 

5) Porque o sr. aceitou a pena do "silêncio obsequio"? Ele ameaçaram retirá-lo como padre?

R. Aceitei as penas e o silêncio obsequioso por um juízo político. Eu entendi e assim também o entenderam muitos bispos importantes da igreja brasileira que o objetivo da intervenção do Vaticano não era propriamente eu. Queria atingir a Igreja do Brasil, a Igreja comprometida com o social, com as comunidades de base e com a libertação. Eu era pretexto para frear o entusiasmo pastoral da Igreja na luta ao lados dos pobres. Sabendo disso, eu acolhi o silêncio obsequioso e as demais punições para impedir que atingissem e condenassem as comunidades eclesiais de base e a Teologia da Libertação. E creio que o consegui, pois os do Vaticano ficaram surpresos com minha atitude de aceitação.

 

6) O que ocasionou sua saída do ministério em 1992?

 

R. Suspensas as penas eu voltei ao meu trabalho de professor e de assessor de comunidades eclesiais de base e de apoio aos movimentos sociais. O controle de Roma continuou, pois cada escrito meu devia ser censurado por duas instâncias diferentes, uma da Ordem franciscana à qual pertencia e outra do bispo. Durante a Eco-92, no Rio de Janeiro, quando se reuniram os chefes de Estado do mundo todo para discutir a relação entre desenvolvimento e meio ambiente, veio o Cardeal Sebastião Baggio e me disse que eu não havia aprendido nada com as punições. Que deveria de novo entrar em silêncio obsequioso, que deveria agora sair da América Latina e do Brasil e que deveria escolher algum convento nas Filipinas ou na Coreia. Eu lhe perguntei se nestes países eu poderia falar e escrever. Ele me respondeu que absolutamente não podia e que deveria ficar em silêncio no convento. Como a posição de Roma era irredutível, tive que decidir, pois achava injusta esta punição. Escrevi dois dias após uma carta onde dizia que mudava de trincheira, mas não de luta em favor dos pobres. Deixava o ministério sacerdotal e a Ordem Franciscana e me autopromovi a leigo. Continuei meu trabalho de professor e de assessor dos movimentos sociais e também de professor de ética e filosofia da religião na Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

 

7) O sr. acha que Ratzinger, como novo Papa, será mais aberto à discussão de vários temas, como insinuou nas primeiras declarações como Bento XVI?


R. Tudo indica que o novo Papa vá continuar a linha de seu predecessor. Como não tem o carisma dele, seguramente vai dar mais autonomia às igrejas locais e fazer um esforço de pacificar a Igreja internamente porque há muitas feridas, amargura e divisões provocadas pelas pesadas intervenções do Cardeal Ratzinger sobre 140 teólogos que foram punidos, conferências de bispos que foram humilhadas, bispos comprometidos com os pobres e os índios perseguidos, como Dom Pedro Casaldáliga, no Brasil, Samuel Ruiz, no México, e Leonidas Proaño, no Equador, entre outros. Sem esta atmosfera fraterna, não se pode viver a Igreja como comunidade. Eu acredito em milagres. Pode ser que agora, Bento XVI, livre da sombra de João Paulo II, volte a ser aquilo que foi como jovem professor, aberto, gerador de esperança e não de medo. Precisamos de uma Igreja que retome a Reforma Católica iniciada pelo Vaticano II e enriquecida com as contribuições vindas das Igrejas da periferia do mundo e se abra à nova fase da humanidade, a fase planetária, atenta ao grito dos bilhões de oprimidos e do grito da Terra, das águas, dos solos, das floresta devastadas e que faça da Igreja uma força de conclamação para a justiça e a solidariedade de todos.

    


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